sexta-feira, 26 de março de 2021

Vidas em Retalhos - XII - ”Fim de semana em Troia – parte III” (Fim)

- Boas! A viagens foi tranquila?

Sérgio dá uma gargalhada antes de conseguir responder.

– Sim, Nuno, se considerares que aquelas duas não disseram uma palavra o santo percurso.

- Posso falar com a Ana, ela é bem melhor do que eu nestas coisas.

- Força, que gente complicada. A minha irmã acha graça ao Jorge, diz que aconteceu, mas não quer pressões, não sabe em que pé estão e a Rita, acima de todas as pessoas, acha que ela devia ter ficado longe do irmão dela.

- É tramado quando as coisas se passam com amigos ou familiares de amigos e tu não podes chamar os bois pelos nomes, mas ainda bem que aconteceu. A tua irmã é jovem, bonita, inteligente, ambos estão sozinhos, gostamos de ambos…

- Sim, São Valentim, vamos ficar por aqui. Anda, ajuda-me na cozinha que estas miúdas nem a loiça querem lavar. Modernices, digo-te eu. 

- Sim, mas a esta hora a garrafa de vinho já deverá estar aberta.

- E a meio…

Os fins de semana de inverno, por Troia, eram geralmente vivos, preenchidos com longas conversas, bem “regados” e gastronomicamente comprometedores. Também, com momentos um pouco mais isolados em que o grupo de separava e enquanto uns ficavam a ler no grande salão, outros optavam por dar uma caminhada e ver o mar.

Ana pareceu ter conseguido apaziguar os ânimos ainda antes da hora do almoço e as três já riam à lareira de copo de vinho na mão. Jorge trocava ideias com Pedro sobre o sexo dos anjos, tendo Sérgio e Nuno sido relegados para a cozinha.

Estes últimos, não demoraram muito a estarem acompanhados pelas mulheres que mais não foram do que assegurar-se do cumprimento da ordem de trabalhos e atazanar o juízo aos cozinheiros.

- Sérgio, acabou-se o sossego.

- Dá-lhes mais uma garrafa de vinho, Nuno e elas desaparecem.

- Estás-me a chamar interesseira? És tão sexy quando te colocas com provocações infantis.

- “Em terceira?”, não, não, vocês são mesmo em primeira… vá, princesa, leva lá esta tábua de queijos.

- És um fofo, amor.

Momento em que Sílvia, Nuno e Ana cruzaram o olhar, com sorrisos de cumplicidade e sem saberem muito bem o que estava ali a acontecer.

Rita, percebe, mas ignora o lapso, agarra na tábua de queijos, faz uma pose e um olhar de provocação e diz para as outras – Meninas, já temos o que queríamos. A que horas é que é mesmo o almoço?

- Fora da cozinha, já – Nuno parece desmanchar-se a rir e elas seguem o seu caminho de regresso à lareira.

Já passava das três da tarde, Sílvia e Jorge, de serviço aos cafés, foram trocando alguns encostos amigáveis, uns sorrisos e olhares discretos, mas que encantaram os amigos.

- Acho que a Rita e o Sérgio estão a acertar ponteiros.

- Não quero sequer saber o que o teu irmão aponta à minha… Não te via como cusca… estou chocado.

- Só quando são temas que me deixam feliz. E, tu, meu querido amigo, como é que estás?

- Estou a caminhar, obrigado. – Responde com um uma expressão pensativa e tranquila - Amigo?

- Amigo ou “amigo”? – Ela sorri em desafio, morde o lábio e vira-lhe as costas com um encolher de ombros.

No amanhecer seguinte, Rita e Sílvia cruzam-se à saída de quartos que não os que lhes foram destinados.

- Rita, Walk of shame?

- Cala-te…

Trocam risinhos e seguem para os respetivos quartos.

Ao pequeno almoço, as suspeitas, os olhares cruzados e os sussurros paralelos pareceram ir aumentando à medida que os amigos captavam a animação e cumplicidade entre Rita e Sílvia, a tranquilidade de Jorge ou o brilho no olhar de Sérgio.

Sem que nada tenha sido partilhado por palavras, o quadro pintado naquele momento dizia muito. As despedidas aconteceram, Pedro, voltou para a sua casa em Lisboa. Sílvia e Rita, regressaram com Sérgio, Nuno e Ana, acabaram por ser os primeiros a sair e no momento da despedida, Sílvia, com um beijo na face de Jorge, deixa um último sussurro.

- Até logo “Amigo”, espero-te na minha casa...

E uma última SMS é trocada, com o Sérgio a receber um “Vamos deixar primeiro a Sílvia em casa…”

A porta do veículo é fechada, o carro avança e a vida continua, com os seus pequenos retalhos preenchidos de grandes momentos.

7 comentários:

  1. É o último texto, a completar um conto que não me “encheu” completamente as medidas, talvez por o ter desenhado inicialmente na minha mente como um romance, algo que não consegui concretizar.
    Este início do ano tem sido exigente do ponto de vista profissional e não tenho conseguido estar presente como gostaria.
    Na próxima semana penso conseguir vos visitar, no que será a minha despedida (temporária quem sabe) da blogosfera.
    O meu muito obrigado pelo apoio, sempre gostei muito de vos receber.
    O meu sentido abraço

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  2. Enredos e segredos, vinhos e petiscos, amizades e amores, a vida em retalhos enfim.

    Foi um gosto conhecê-lo, sô João

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  3. A vida tem exigências que nem sempre nos permitem a disponibilidade necessária para dar corpo aos sonhos. Espero que quando houver disponibilidade dê continuação a esta história que muito me estava a agradar e me deixou assim como se fosse por uma bela estrada em direção a um destino de sonho e de repente a estrada terminasse no meio de nenhures.
    Abraço, saúde e bom fim de semana

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  4. João,
    A vida nem sempre corre como desejamos, talvez por isso ela seja fascinante, porque é inesperada, não achas ?
    Escreve o teu romance no momento que achares certo e se me permites um conselho de amiga, escreve aqui o que te vai na alma, ao teu ritmo, sem abandonares este cantinho.
    Afinal, o teu copo está meio cheio ! :)

    Um beijinho

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  5. Olá, João

    Gostei muito desses "Retalhos" de vida.
    Retrato de várias vidas, personalidades
    diferentes e cada uma com as suas qualidades
    e defeitos. Amigos que se preocupam uns
    com os outros, que se encontram e convivem.
    Sempre um prazer ler os seus textos.
    Abraço
    Olinda

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  6. Gosto do seu estilo de narrativa com diálogos que nos ajudam a melhor perceber a história.
    Mas não vai embora, pois não?
    Uma boa semana com muita saúde.
    Um beijo.

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  7. Interessante o teu conto. Estive a ler os «posts» anteriores...

    Beijinho

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