quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Uma imagem por um texto: “Que nunca nos falte o Amor”


Todos os dias, pela manhã, aos primeiros raios de luz, salta da cama, deixando a dormir o próprio despertador e Margarida, ela, bem enrolada ao édredon, bela como a vida, cabelos desgrenhados e a expressão tranquila de quem sonha com um mundo pleno de cor.
 
Dezembro parece querer publicitar a chegada de mais um Inverno, húmido, cinzento e frio, com chuviscos e dias escuros. 
 
Numa rotina, quase perfeita, coloca o pão a descongelar no micro-ondas, espreme laranjas, prepara uma manga, deixa na mesa o queijo, a manteiga e o fiambre de frango, enquanto toma o seu primeiro café, não sem antes ligar o aquecimento da casa de banho. Estende a roupa deixada na máquina na noite anterior, abre as portadas da sala e deita um olhar de relance à lareira, ao sentir uma agradável sensação de conforto térmico, ainda fruto do crepitar passado.
 
Leva o cão à rua, sente o ar gélido, faz uma careta e solta-o no jardim, em frente ao condomínio, enquanto aperta o cachecol e dá ordem para que se despache. Acende o primeiro cigarro, absorvendo de seguida alguns segundos de um prazer que pretende deixar, quem sabe um dia.
 
Regressa a casa, troca beijos apaixonados com Margarida, acabada de acordar, ainda com aquela deliciosa e mimosa expressão de quem não deixou na totalidade o Mundo dos sonhos.
 
- O teu despertador acordou-me. 

- Cumpriu a função dele, portanto… assim o teu fizesse o mesmo – Sorri, senta-se à mesa, enquanto começa pelo sumo e desbloqueia o telemóvel para ler as primeiras notícias do dia.
 
Pequeno almoço terminado, levanta-se e dirige-se para a sala de banho, recebendo um beijo e um apressado “amo-te”, que o desperta para o facto de já estar atrasado. 

Entre o trânsito, os transportes, as esperas, reuniões, e-mails, telefonemas, questões avulsas colocadas por colegas deslocados da realidade, consegue finalmente começar a trabalhar a partir das cinco da tarde, momento em que a noção de ter de levar trabalho para casa torna-se uma certeza.
 
Meia dúzia de mensagens trocadas com Margarida, alimentam-lhe o espírito e a sanidade. Fica a saber que o jantar está bem encaminhado, o almoço para o dia seguinte pronto, a casa limpa e que a senhora da roupa já por lá tinha passado.
 
Entra em casa, sente a agradável sensação do calor proveniente da lareira, beija Margarida, com quem troca sorrisos cansados e cúmplices. Storm, recebe-o com um brinquedo na boca e com a energia que um Golden Retriever de doze anos ainda consegue ter. Faz-lhe uma festa à distância possível, na tentativa infrutífera de não ficar com pelos no fato.

Jantam rapidamente, enquanto trocam as novidades do dia, as queixas, os suspiros, as palavras de amor. Margarida abre a pasta com testes para corrigir, ele o portátil da empresa para dar continuidade a um longo dia, não sem se perguntar, “a partir de quando ficou tudo tão complicado?”.
 
Ela na mesa da sala, com todos os papeis cuidadosamente numerados e em posições marcadas tipo planta de arquiteto, ele no sofá, lateral à lareira, com o computador na mesinha de apoio, trocam olhares ternos e Jorge consegue visualizar aquele momento, perdido no espaço e no tempo, do primeiro beijo, bastante posterior ao do primeiro olhar, ao das primeiras trocas de palavras, mas ainda anterior ao primeiro “amo-te” e à confirmação da certeza de querer passar o resto dos seus dias ao seu lado.

“Amo-te, agora e para todo o sempre”

 

Um desafio aceite por alguém que já não tem blogue (tanto quanto sei), o JL , mas como gostei da imagem, não consegui deixar de lhe dar uso.

28 comentários:

  1. A imagem, fica aquém da história, mas dentro dela ganha força. És um contador de história nato. :-)

    Quero maaaaaaaaaaaaaais

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    1. Bondade tua. Em todo o caso, mais um texto com proveniência nos “pedidos” de alguém sem nome (sorrisos). Obrigado pela motivação.

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  2. E fizeste muito bem,pois o texto constrói uma bela história.
    Beijinho

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    1. https://raraavisinterris.blogspot.com/2019/12/sam-seaborn.html

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    2. Muito obrigado, pela “prenda” e pela amizade. Muitos beijinhos.

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  3. Uma excelente história. Tão bem escrita que nos coloca na cena e torna desnecessária a imagem.
    Abraço

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    1. Muito obrigado, significa muito, vindo de alguém que escreve tão bem.
      Quando estou a ler uma história, gosto de me perder, no sentido de a viver pelos ou ao lado dos personagens. Para mim, o livro, sempre foi um “filme” de melhor qualidade, uma forma de “realidade virtual” bem adiantada no tempo que acaba por desencadear sentimentos de ordem diversa. Se, quando escrevo, consigo transmitir esse sentimento, então, estou no caminho certo… abraço

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  4. Uma bela imagem a merecer um texto condizente e à qual, como expectado, não deixaste ficar mal, antes pelo contrário. Um relato sincero de muitas realidades imperfeitas e deliciosamente sem queixumes. Infelizmente, esses pequenos "parafusos soltos" seriam suficientes para estragar essa relação que se adivinha perfeita, tão perfeita como a imagem em que a história se baseou. Parabéns.

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    1. O sentido inicial da resposta parece querer dizer que já “estou como a Céu”, no seu comentário abaixo (sorrisos) e acrescentar que, tal como não se deve escrever “nunca” ou “sempre”, também não existe uma “relação perfeita”.
      O problema quando se começa a “banir” palavras, é que depois, também não se pode usar a “felicidade”, até porque o Rogério não deixa de ter razão nos argumentos que usa… e, em consequência será tipo efeito bola de neve…
      Eu, por mim, uso “tudo”, até porque defendo que a vida é um segundo após o outro e naquela fração de segundo, naquele hiato de tempo, a relação era/foi/é perfeita, era/foi/é para todo o sempre e o casal era/foi/é perfeito (sorrisos)
      E tudo isto para dizer que, tens razão e há neste texto muito “trabalho”, muitas “questões” e que, no final do dia, cabe a cada um ir fazendo pesagens e verificar se o prato da balança, responsável pelos seus bons momentos, se continua a valer o contrapeso.
      Grande abraço, Miguel

      Ps. Já passou mais de uma década desde os primeiros textos… deixo-te o desafio de escreveres sobre a escrita do Miguel dos primeiros textos/poemas e a escrita deste, mais de uma década depois. Pensa no “tipo” de escrita, na informação trabalhada outrora, como entenderes.

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  5. É curioso,
    ela não se chama Margarida
    nem eu me chamo Jorge
    nós não temos cão,
    nem lareira
    mas ficou-me a impressão
    de que nos andaste a espiar
    a vida inteira

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    1. Um dia, alguém sábio disse-me que devemos inspirar-nos em pessoas que gostamos mais, que gostamos menos, que nos são próximas, que conseguimos observar. Eu, acrescento o misturar várias numa…
      Assim, fiz alguns telefonemas
      e
      O meu amigo Donald, passou a permitir-me o acesso a relatórios diários… (sorrisos). Tive de acrescentar o cão e a lareira e alterar os nomes para não ter problemas com a justiça…

      Aquele abraço

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  6. Que NUNCA nos falte as tuas belas histórias, Sam 💙

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    1. Muito obrigado, Teresa, pelas palavras e pela generosidade.
      Um beijo e um ótimo fim de semana.

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    1. Muito obrigado. Gosto ,muito de ler em voz alta... dá-me uma diferente perceção, acho.

      Bom fim de semana


      Um beijo e um ótimo fim de semana.

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  8. Olá!

    Um texto muito bem escrito e descrito, e o que eu gosto de pormenores!

    Este post bem podia ser uma situação vivida num destes dias, um dia de um casal, apaixonado, feliz, ativo (trabalho) e com tudo programado, excetuando os beijos e os "amo-te".

    Margaria é descrita, fisicamente, nos gestos, falas e nas atitudes como uma princesa, visto que o "seu" Jorge faz, antecipadamente, quase tudo. "Pobrezinha"-rs, ela é Professora e tem "n" testes para corrigir e a tarefa não é, de todo, fácil, digo-lhe eu.

    Ele, "enfim" é um executivo e está tudo dito-rs. "Morre de amores pela sua Margarida, pela sua flor, pelo menos em casa -rs, mas, lá fora tem olhos e sentires, como todos os homens, mesmo aqueles que, à força, se querem manter fiéis, não no pensamento, claro.

    Os advérbios de tempo "sempre" e "nunca" devem ser evitados, em minha opinião, e no amor, muito mais.

    O Sam aproveitou muito bem a imagem, onde a "descarada" Margarida está a "centrifugar" o pobre Jorge, que parece à mercê da "fome" dela. De salto alto, fininho, a menina Guida-rs, ainda se põe em bicos de pés, agarrando-lhe o pescoço, que nem "corda" e aproveita a boca dele, todinha, sem o deixar "respirar", ao menos. "Ditadora"! Acho que isto é característica das professoras-rs.

    Beijo, boa sexta e melhor fim de semana. Estou farta deste tempo.

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    1. Olá!
      Um comentário que me fez sorrir, tem frequentemente esse efeito (gosto).
      Ora, muito obrigado, pelas palavras, são estas que nos transmitem os sentimentos, neste caso. Gosto que goste dos pormenores e eu gosto das suas análises aos meus textos, é um facto.
      Para mim, é importante transmitir sentimentos, provocar reações, fazer com que quem me lê acredite na “realidade” descrita, nas mensagens impostas e provocar agrado ou desagrado, por exemplo. Este blogue é, para mim, um exercício de escrita que me faz bem e se continuar a escrever, espero, um dia que seja… conseguir provocar tudo isso (quem sabe).
      A vida, normalmente, encarrega-se de desconfigurar toda a “programação”, em todo o caso, análise minha, os casais tendem a ter de lutar contra essa “rotina de obrigações”, umas vezes com mais sucesso do que outras, é claro.
      A Margarida é tratada como uma princesa, verdade. O texto é curto e não nos diz muito mais, mas provavelmente será, também, tratada como uma mulher (sorrisos). No texto em apreço, até diria que a “pobrezinha”, carrega todas as tarefas… digo eu (risos)
      Ele, é um tonto, como todos os homens conseguem ser.
      E este, sempre foi o ponto em que desde o início teimamos em não estar de acordo (risos). Na análise que faço, e, sem entrar em juízos de valor, não vejo, hoje, uma divergência comportamental assim tão acentuada entre Homens e Mulheres… Quem sabe a Catarina vê este comentário e consegue nos “ajudar”…
      «Os advérbios de tempo "sempre" e "nunca" devem ser evitados, em minha opinião, e no amor, muito mais.» concordo… mas, penso, ainda assim, escrever um texto sobre isso.
      «[..]imagem, onde a "descarada" Margarida está a "centrifugar" o pobre Jorge, que parece à mercê da "fome" dela. De salto alto, fininho, a menina Guida-rs, ainda se põe em bicos de pés, agarrando-lhe o pescoço, que nem "corda" e aproveita a boca dele, todinha, sem o deixar "respirar", ao menos. "Ditadora"! […]» penso que, pela imagem, é claro que ele está a detestar…
      Céu, este comentário iluminou um segundo ou dois da minha noite… (muitos sorrisos)
      Beijo, bom fim de semana, pleno de inspiração e com um sol especialmente brilhante e acolhedor.

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  9. Retificando: 3º parágrafo - Margarida e não Margaria.

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  10. Uma imagem sempre tem uma história verídica ou não.
    A criatividade dá vários tons de cores ao que se vê.
    Bom fim de semana!

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  11. è sempre um prazer ler tuas palavras
    Abraço
    Kique

    Hoje em Caminhos Percorridos - Vou ter Gêmeos

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  12. Olá, Sam

    Texto belíssimo. Um dia do quotidiano contado com dinamismo e alegria.

    Sente-se o amor em cada gesto. O casal olha-se, preocupa-se um com o outro e mesmo nas tarefas que parecem inadiáveis têm a certeza de que se amam: “Amo-te, agora e para todo o sempre”. Lindo!

    Adorei.

    Abraço

    Olinda

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    1. Muito obrigado pelas palavras.

      Abraço e um ótimo início de semana

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  13. Boa noite de semana pré natalina, Sam!
    Já havia lido e gostado muito.
    Venho hoje, com calma, comentar.
    O Amor traz cor aos nossos dias.
    Os sonhos nos estimulam e impulsionam a novo ânimo.
    Ter a certeza de querer para todo o sempre é por demais estimulante.
    Tenha dias felizes e abençoados!
    Abraços fraternos de paz e bem
    https://espiritual-marazul.blogspot.com/2019/12/o-amor-e-epico.html

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    1. Muito obrigado Roselia,

      Abraço fraterno e um feliz natal para si e para a família

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