quarta-feira, 7 de agosto de 2019

“Uma imagem por um texto “ – Uma casa portuguesa, com certeza




“Numa casa portuguesa fica bem,
Pão e vinho sobre a mesa
E se à porta humildemente bate alguém,
Senta-se à mesa com a gente”

A humidade da noite parecia colada, qual mel incolor, às folhas das árvores. A neblina, dá, agora, lugar a um sol glorioso a cortejar o mais azul dos céus.

Amália cantava, com o locutor de rádio a fazer o favor de não interromper o momento. Maria sorri, pelas muitas recordações e emoções que a canção fazia-lhe chegar, qual tornado, enquanto cortava batatas para a sopa.

“Quatro paredes caiadas,
Um cheirinho a alecrim,
Um cacho de uvas doiradas,
Duas rosas num jardim”

Junta-se com alma à letra, coloca o tacho em lume brando e começa a colocar a mesa na sala de jantar. Regressa à cozinha, aproveita para limpar a bancada e continua,

 “Basta pouco, poucochinho pra alegrar
Uma existência singela
É só amor, pão e vinho
E um caldo verde, verdinho
A fumegar na tijela”

Com o caldo verde ao lume, pensa sorrindo, a música parecia quase à medida, como se estivesse a fazer parte de uma publicidade ou de uma cena da telenovela das cinco.

Tudo era tão familiar, desde o tempo em que as paredes eram caiadas, às uvas doiradas que sabiam efectivamente a uva, até ao sempre agradável cheiro a alecrim, que já não queimava, utilizando apenas na confecção dos alimentos.

E por que não? – pensou, dirigindo-se rapidamente ao jardim para cortar duas das suas mais belas rosas, ainda quase fechadas, presenteadas recentemente pela Primavera que já se fazia sentir – Faltavam as rosas, sorri, um sorriso que reflecte felicidade, que reflecte aquela bondade que motiva e enternece, agora, falta apenas que a filha, o neto e a genro cheguem a horas para o almoço. Estas novas gerações nunca têm horários para nada…

Desloca-se até ao portão, caminha com a calma dos anos, sempre serena e sempre sorridente, cativando pela beleza da idade e pelos olhos de um azuis celestial, e, contempla o longo caminho deserto, rodeado por alguns sobreiros, sem vislumbrar o menor sinal de uma viatura. Respira fundo, repara nas gaivotas em cima do telhado e imagina a voz de Amália a cantar.

“Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.”

Ela não era assim, na realidade nunca teve muito tempo para perder-se no passado, não porque não tivesse boas recordações, não porque não tivesse saudade de algo ou alguém, mas, agora, até das mais pequenas coisas brotam memórias.

De expressão frágil, pálida, bela e de olhos brilhantes, assim é Maria. Vivia junto ao mar, a uns escassos metros da praia, uma família que ama, tem o sol, o mar, o seu mar, a areia e com o campo, igualmente, a breves instantes.

“Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.”

Tivera uma vida preenchida, carreira, algo ainda pouco comum na sua geração, num mundo governado por homens. Casou por amor, chorou por amor quando a morte o levou, ficou com a filha que a ama, um genro encantador e Jorge, o mais irrequieto dos netos que sempre que a visita, deixa-a de alma cheia.

“Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.”


Um desafio aceite pela minha querida Janita do Blogue Cantinho da Janita, a quem agradeço a fotografia.

16 comentários:

  1. Um quadro bem português, em fado emendado e na vida, talvez...

    Esta imagem está um mimo, que mima a Janita, e mima quem lê.

    Tu escrebes muito benhe muoço :-)

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    1. Muito obrigado, fado, saudade, tudo tão português... Muitos beijinhos

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  2. Que texto tão singelo e lindo, Sam!
    Que bem retratada ficou a ideia que reflecte a fotografia, que tirei a essa casa, numa localidade perto do mar!!

    Comecei a ler divertida e acabei a leitura do texto, profundamente comovida. Muito obrigada, querido Sam...a Maria é bem a minha cara...:)

    Um beijinho grande e muitos parabéns, por escrever tão bem e com tanto sentimento.

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    1. Muito obrigado Janita, pelas palavras e pela atenção constante.

      Este tipo de desafios acabam não só por "obrigar-me" a escrever, como a sair muitas das vezes da zona de conforto dos textos espontâneos, no fundo, sair da "preguiça" e fazer por tentar evoluir a própria escrita.

      Beijinho grande.

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  3. Tão simples, tão perdida no tempo... um tempo preenchido com simples prazeres e muito amor...
    Obrigada pela visita...
    Beijos e abraços
    Marta

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    1. Obrigado pelas palavras Marta, nas zonas de "interior", nas ditas "terrinhas", ainda se consegue ter contacto com o "Portugal da minha infância"

      Beijinhos

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  4. Olá, posso deixar-te um desafio??? A propósito da última frase do meu post " vejo-me como tu me vês ", não queres escrever um texto? Eu também posso escrever um novo poema a partir da mesma frase.
    Beijos e abraços
    Marta

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    1. Aceito, claro que sim, com gosto, provavelmente acabará por sair em Setembro.

      Beijinhos Marta e obrigado pelo desafio

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  5. Agradou-me o texto que merece nota máxima.

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    1. Muito obrigado e espero que a nova "casa" esteja já em grande movimento.
      Abraço

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  6. Espectacular junção entre texto e imagem!...
    Já não estou bem certa de qual blogue me trouxe aqui... mas creio que foi o da Catarina... Contempladora Ocidental!...
    Estou praticamente nas vésperas de me ausentar por algum tempo, como costumo fazer na minha habitual pausa de Verão... também em termos de blogosfera... temos um blog de fotografia... se e quando desejar alguma foto(s), para algum dos seus belíssimos textos, como já tive oportunidade de constatar um bocadinho às pressas... esteja à vontade... poderá escolher a que mais o inspire... teremos imenso gosto, em tal!... Estamos em artandkits.blogspot.com
    No nosso blog, à direita, através das tags, ficará mais fácil escolher por temas, se assim o desejar!...
    Será um imenso gosto, visitar este cantinho mais assiduamente e mais demoradamente após o meu regresso... lá para meados de Outubro!...
    Até lá!... E já o estamos seguindo por aqui, pois claro!...
    Tudo de bom! Um grande abraço!
    Ana

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    1. Muito obrigado pelas palavras, a Catarina tem uma casa virtual extraordinária e ainda bem que nos encontrámos.
      Mas que grandes férias Ana... Fico cheio de inveja (risos) Aproveite bem e no seu regresso eu já devo ter escolhido uma imagem sua, depois entro em contacto.

      Muito obrigado, beijinhos e umas férias em grande

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