segunda-feira, 19 de agosto de 2019

"Uma imagem por um texto"- Odeio-te

Existem dias que parecem noites, intermináveis cenários de uma guerra celestial, a chuva cai com alguma intensidade e apenas o clarão ocasional dos relâmpagos ilumina um mundo de trevas.

Uma viatura pára em frente a um prédio numa estrada deserta, nos arredores de Lisboa, mantém os médios ligados e o motor a trabalhar. Uma mulher alta, de linhas perfeitas, cabelos pretos e olhos castanhos, sai do carro, olha para o céu, grita do fundo do seu ser, a chuva percorre-lhe o corpo e a tudo ela parece indiferente.

- Que mais queres de mim?

- Que mais te posso dar?

- Que é que te fiz de tão grave? Quero paz, Dá-me um pouco de paz… Não aguento mais…

As lágrimas percorrem-lhe a face, Maria sente o tremor na voz, revoltada com Deus, com a vida, com tudo e todos. Sente-se esmagar por algo que deixara de controlar e continua, de forma irada, a falar para o infinito.

- Tenho sido honesta, sabes que sim. Não tenho por hábito mentir ou enganar, sigo o meu caminho, segundo as leis dos Homens e as tuas. Traíste-me…

- Sou sincera, não é meu hábito simular, sigo a minha estrada pelo que acredito ser o mais correcto e tento ser melhor, sabes que o tento… tu sabes…

A chuva intensifica-se, a parede de tijolo molhada parece brilhar. Ela repara nas curiosas janelas quadradas que reflectem o seu rosto molhado. A trovoada aproxima-se um pouco mais e o Mundo parece acabar. A blusa impecavelmente branca cola-se ao corpo reforçando a silhueta delicada enquanto o inferno molhado parece atingir o seu pico.

- Não sou a pessoa que esperavas?

- Que mais posso fazer? Só queria um momento de felicidade, era pedir muito? Deixaste-me… Amo-o e tu deixaste-me, ele deixou-me… Odeio-te, odeio-o… Não te quero mais, não o quero mais…

Sente a dor como nunca tinha sentido. Nada será como dantes, pensou.

- Sou perfeita? Apenas humana.

- Que mais queres de mim?

- Maldito sejas…

Entra lentamente no carro, sem alma, fecha a porta e segue caminho.



Desafio aceite por ematejoca do Blogue ematejoca azul, a quem muito agradeço a imagem.

32 comentários:

  1. Esta história, parece minha, pela metade. Digo metade, porque só no que se refere a Ele, lá em cima, ela me veste na perfeição. Um dia também me senti traída.

    Olha o que 3 janelitas te inspiraram . Bela e intensa história.

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    1. Lendo o comentário do JLynce, cumpre-me informar que não sei odiar, ou gosto/amo ou tou nem aí.

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    2. Penso que crescermos com uma formatação, uns acabam por sair dessa formatação e seguem um caminho próprio, outros não.

      O ser humano sempre necessitou de acreditar em algo, faz parte da genética...

      Muitos beijinhos e obrigado

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  2. Céus‼ O que três curiosas janelas quadradas te inspiraram, Sam‼ A intensidade da história roubou-me as palavras e a respiração.

    Mil beijos de agradecimento 💙

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    1. Muito obrigado ematejoca, gostei muito de escrever este texto, por isso, obrigado eu.

      Muitos beijinhos

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  3. Sam, regressaste em grande! A tua personagem «esguia» sofre. Do amor ao ódio é só virar a moeda...
    Não suporto a traição.

    Beijo e boa noite.

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    1. Muito obrigado Ana, é um regresso diferente, os textos antigos eram mais espontâneos, estes acabam por exigir um bem mais raro (o tempo) mas acabo por divertir-me mais...

      Do amor ao ódio é mesmo só virar a moeda... apesar de não ser alguém com sentimentos por resolver, pelo menos não assim tão fortes (ódio).

      Um beijo Ana

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  4. Faz-me confusão odiar alguém que já amamos um dia. Mas reconheço que esses sentimentos completamente opostos encontram-se em toda a espécie humana.

    Abraço

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    1. Também JL... mas a verdade é que parece ser o que acontece com a generalidade das relações que terminam...

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  5. Se todos os que gostariam de gritar o mesmo, o fizessem; haveria grandes e altissonantes ladainhas pelas estradas deste mundo...
    Um texto criativo, bem organizado e exposto.
    Gostei de ler, Sam.
    Uma ótima semana.
    Abraço
    ~~~

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    1. Muito obrigado Majo, assim por assim já há barulho quanto baste ahahah

      Abraço e uma ótima semana

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  6. Não sei que efeito causaram na mente do Sam, estas minúsculas e estranhas janelas, mas sei que o texto é tão intrigante e misterioso quanto elas, as janelas...Que mal o mundo terá feito à Maria para lhe despertar tanto ódio?
    Não faz, de todo, o meu género de leitura.
    Não gosto de gente amarga e que, não acreditando em Deus, acaba por o odiar e culpar pelos seus infortúnios. Será que nas horas felizes Lhe agradecem?

    Boa noite e um abraço colectivo. :)

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    1. Acreditar ou não em Deus, não tem a ver com as pessoas que têm ódio no coração 💓

      Não acredito em Deus, no entanto, não odeio ninguém. Claro que nunca fui atraiçoada, mas mesmo que fosse.

      O texto do Sam é LITERATURA‼ Na literatura vale TUDO, assim como na arte ou na música. É a criatividade do autor‼

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    2. O ser humano não é perfeito... por isso é Humano... cheio de defeitos e virtudes.
      Na vida nem tudo é preto nem branco, o mundo está cheio de outras cores estranhas... e se na vida tudo é cheio de cores, num texto curto de blogue... muito fica por explicar... Maria está revoltada com algo que para ela é suficientemente grave para perder a "magia" do acreditar (temporariamente ou não, em algo que acreditava, sentiu-se traída com Deus? Se Deus nos criou à sua imagem terá capacidade de entender...

      Boa noite, obrigado e beijinhos Janita

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    3. Ematejoca... fiquei temporariamente sem palavras, muito obrigado... mesmo.

      Há aqui duas questões, eventualmente bem mais do que um problema.
      Quem nunca na vida já sentiu a queda de uma "avalanche" 1 problema, cai outro e outro e outro até que sente que não aguenta a queda de nem mais um grão de areia? Quem nunca?

      Não vou acrescentar nem um pouto à história, mas não acredito que seja apenas um mal de amor. (até porque quanto muito a questão está só numa das gavetas do meu cérebro...

      A outra questão é bem mais pessoal e bem mais profunda, daria ou dará um dia para vários textos autónomos... Na nossa sociedade nascemos e somos formatados a acreditar, a vida entretanto acaba por nos mudar e há quem deixe de acreditar. Eu costumo dizer que se chegar a uma idade mais avançada, tenho a certeza que voltarei a acreditar (ou não)

      Muito obrigado pelas doces palavras, beijinhos

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    4. Vejo que o sentido das minhas palavras foi duplamente deturpado, mas sinceramente, isso não me espanta nem fere, pois já não é a primeira vez que isso acontece, na blogosfera.

      Uma coisa é sentirmos revolta contra Céus e Terra, perante a perda de alguém que nos faz falta e de quem gostamos. Ainda recentemente senti isso. Outra, é destilar ódio por todos os poros e culpar outrem pelo nosso sofrimento...Claro que eu sei distinguir ficção da realidade, mas, quando lemos um texto ou livro, a tendência é pormo-nos na pele das personagens...Pobre do escritor que não inspire esse sentir...E por aqui me fico.

      Obrigada, Sam.

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    5. Não pense isso... Em todo o caso, penso que só quando a Maria voltar a aparecer num texto se poderá compreender um pouco melhor (ou não) o seu sentimento de desespero.

      Beijinhos Janita

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  7. Nas horas de desespero, as pessoas fazem afirmações precipitadas, expressam sentimentos que na realidade não sentem...

    Mas o seu sofrimento foi-nos muito bem transmitido.

    Gostei de ler, Sam.

    :)

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    1. Muito obrigado Catarina. Tal como diz, por vezes são desabafos e o ser humanos tem-nos muito...

      Beijinhos Catarina

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  8. Nunca me passaria pela cabeça tamanha divagação.
    Chapelada de aba larga!!
    Aquele abraço

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  9. Caramba... perfeito! Você é bom cara, que louco isso.


    estranhome.blogspot.com

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. O que sentem as pessoas que caminham à nossa frente e aquelas que vemos através do vidro baço duma janela?
      Muito bom.
      Abraço

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    2. Por vezes há que tentar adivinhar a resposta a essas questões quando criamos os textos, ou colocar ainda mais em cima dessas (risos)

      Abraço Magui e obrigado

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  11. Ola Bomdia,
    Gostei muito do texto.
    Imaginação a flor da pele.
    muito bom
    bjs

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  12. Também há dias em que grito com a Lua e lhe faço perguntas... Mas as respostas... sou eu quem tem que as encontrar...
    A Maria também as vai encontrar...Foi o desabafo do momento...
    Interessante o texto... Obrigada pela visita
    Beijos e abraços
    Marta

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    1. Penso que todos temos esses dias e saber que aos outros também acontece dá-lhe um registo de... normalidade (sorrisos)

      A resposta tem sempre de estar em nós... podem conduzir-nos mas só nós podemos resolver determinadas questões...

      Muito Obrigado Marta,

      Beijinhos

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  13. Olá Sam.

    A dor, seja ela física ou na alma, distorce a realidade e aquilo que somos, cega-nos, dilacera-nos!
    Espero que nunca tenhas motivos na tua vida para sentir o que a Maria do teu conto sentiu.

    Já vi que tenho muito que ler por aqui. 😊
    Um beijinho e parabéns!
    (^^)

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    1. A vida é feita também de dor... importa fazer por a superar (quando e sempre que possível).

      Muito obrigado pelas palavras, beijinhos

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