quarta-feira, 6 de março de 2019

Uma imagem por um texto - O Anticristo

Poderosa, ameaçadora e ensurdecedora, a tempestade assola a noite no seu escuro véu. Rios percorrem as ruas quase desertas de Lisboa, mas a tudo ele parece indiferente.
 Encostado à parede de um prédio antigo, coberto pela tenebrosa intempérie, um individuo sem idade, sujo e andrajoso, ajoelhado e de pés nus, grita das profundezas da alma.
- O Anticristo está a chegar, estás a chegar, a besta está… – uma falha na voz, a lágrima sobrepõe-se à chuva que lhe percorre o corpo, ao mesmo tempo que vislumbra a indiferença ou a grande repulsa de quem por ele passa – Esperem! Oiçam-me! Já vi a besta da terra… já o vi…
- O caos vai-se instalar, já vi o falso profeta – rouca e profunda como a noite, sua voz projecta-se na escuridão, perdido, seus olhos semicerram-se, como os dum animal encurralado – Armagedão, o anticristo entrará em Jerusalém e se autoproclamará Deus.
- Oiçam-me, têm de me ouvir! Aqui ninguém é inocente. – Desesperadamente insano, descontrolado, leva as mãos à barba enquanto grita no vazio – Jesus não vai regressar para salvar o Mundo, é tudo mentira.
- Vem, mata-me com as tuas palavras, desafio-te… – sem esconder a decepção, deixa-se cair de exaustão, para a custo se levantar, reprimindo um novo soluço resignado e triste – A batalha já se deu e Deus perdeu-a…
De repente, estremeceu – Pára, estou a arder, deixa-me, deixa-me, não te quero.
Sente, uma vez mais, o abandono dos sentidos, apaga-se momentaneamente para a vida. Ao acordar, sente-se calmo, em seu redor apenas a mais pura das cores. Será que está morto? Está deitado numa cama, envolto em lençóis brancos. Sente-se limpo e a roupa tem um suave odor a lavado.
 Está sozinho, a mente ainda distante e a vista algo turva. Pela luminosidade do quarto poderia adivinhar o paraíso não fosse estar de mãos e pés atados, mas o inferno não é tão puro, pensou.
O rosto de um anjo surge sobre si, numa língua perdida, dá-lhe algo para tomar e contínua suavemente seu diálogo.
 Que interessa afinal onde está… não há presente ou futuro, o passado a água da chuva levou…
 
Imagem: Pintura de Pablo Picasso, "Guernica", 1937

27 comentários:

  1. Gostei de ler
    Interessante texto
    Abraço

    Kique

    Hoje em Caminhos Percorridos - 0 69 mais porco que já vi !!!!...

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  2. Um texto fantástico. Gostei de ler!

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  3. Quer saber? As vezes temos a ilusão
    de que os loucos vivem nua espécie de inferno
    particular e os sadios de mente no paraíso.

    Ao ler suas palavras fiquei pensando o quanto
    de nada sabemos, não é?

    Gostei do final... Foi feliz.

    Saiu daquele cenário de solidão, do frio,
    do escuro e mesmo atado, se encontra na
    luminosidade do limpo, do cheiroso, sobretudo
    alguém ali se importa com ele e o cuida.

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    1. Gostei muito das suas palavras e é como diz... nada sabemos.
      Por vezes estamos em lugares com pouca luz, mas penso que a procura da luz, já por si, é um caminho feliz.
      Beijinhos

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  4. Uau! Quanta intensidade neste texto. Parabéns, está incrível

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  5. Dos textos que por aqui mais gostei de ler.
    Excelente

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    1. Olá Magui, muito obrigado. Escrever não é fácil e um texto de blog para além de tudo o mais, tem o desafio de ter que ser curto... beijinhos

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  6. Excelente texto! Forte, incisivo, verdadeiro.
    Que a vinda do Anticristo está para breve é convicção de muitos. Mas poucos "acordam" num lugar luminoso, limpo e cheiroso...
    Gostei do espaço. Vou voltar.

    Desejo bom Fim-de-semana
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

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    1. Muito obrigado Mariazita, espero que volte. O caminhar e o lutar e resistir, são inerentes à condição humana.
      Boa semana, beijinhos

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  7. São os loucos de Lisboa
    Que nos fazem duvidar
    A Terra gira ao contrário
    E os rios nascem no mar

    Por vezes, na loucura, se encontra a maior das normalidades.

    Um dia, noutra vida, nesta não me parece possível, vou saber escrever assim, tão bem como tu. :-)

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    1. Muito obrigado noname, gosto muito do teu espaço e a escrita é uma musculo... vais ver que escreves bem melhor do que pensas

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  8. Tanto ser assim à deriva!
    Gostei do texto...

    Abraço

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    1. Muito obrigado Rosa dos ventos, hoje mais do que nunca penso que assim é... parece que caminhamos em círculos e por vezes regredimos

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  9. E as revoluções ainda continuam...
    Gostei de ler.
    Prazer em conhecer seu blog.
    janicce.

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    1. Revoluções, regressões, avanços, desilusões... a vida é composta com um pouco de tudo.

      Muito obrigado, beijinhos

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  10. Os pesadelos acontecem, a qualquer hora ou em qualquer lugar.
    Este está magistralmente descrito, e é fruto deste mundo conturbado.
    Beijinhos.

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    1. Muito obrigado Maré Viva, a escrita faz me bem e talvez a parte que má goste seja a de começar um texto numa direcção e acabar por escrever algo completamente diferente e foi o caso deste texto...
      Beijinhos

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  11. A noite e os seus infindáveis terrores e mistérios. Um belo textos e uma profundidade interpretativa no subtexto.
    Gostei de ler-te.
    Beijo

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  12. Estou a ver que isto do regresso à blogosfera foi sol de pouca dura, Sam! Ou será que anda ocupado a escrever os textos para as fotos/imagens, que lhe mandámos?!
    Desejo que o motivo seja mesmo esse - ou outro sem gravidade - que de coisas más, já basta o que basta...
    Beijinhos.

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    1. Por vezes a vida lança desafios que nos limitam, mas quero voltar à escrita Beijinhos

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  13. Parece-me que já li isto em qualquer lugar...:) como aliás, outros textos aqui.. a minha memória está cada vez pior, reconheço, mas há textos que reconheço de imediato... :) Basta de preguiça e toca a escrever textos novos para as imagens Sam! Na minha pesquisa encontrei outro blogue teu...a final, não estiveste totalmente ausente da blogosfera estes anos todos...:) Beijinho

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    1. Já te respondi... Beijinhos prometo seguir your advice ... Going to be back soon

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  14. Muitos Parabéns e um beijinho, Sam! :)

    Sim senhor! Bela partida nos pregou... conforme chegou assim partiu: repentinamente!! :)

    Saúde é o que desejo.

    Um abraço.

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    1. Muito obrigado Janita! Por vezes a vida toma conta de nós e retira inspiração mas estou quase pronto para regressar. Beijinhos

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