sexta-feira, 26 de março de 2021

Vidas em Retalhos - XII - ”Fim de semana em Troia – parte III” (Fim)

- Boas! A viagens foi tranquila?

Sérgio dá uma gargalhada antes de conseguir responder.

– Sim, Nuno, se considerares que aquelas duas não disseram uma palavra o santo percurso.

- Posso falar com a Ana, ela é bem melhor do que eu nestas coisas.

- Força, que gente complicada. A minha irmã acha graça ao Jorge, diz que aconteceu, mas não quer pressões, não sabe em que pé estão e a Rita, acima de todas as pessoas, acha que ela devia ter ficado longe do irmão dela.

- É tramado quando as coisas se passam com amigos ou familiares de amigos e tu não podes chamar os bois pelos nomes, mas ainda bem que aconteceu. A tua irmã é jovem, bonita, inteligente, ambos estão sozinhos, gostamos de ambos…

- Sim, São Valentim, vamos ficar por aqui. Anda, ajuda-me na cozinha que estas miúdas nem a loiça querem lavar. Modernices, digo-te eu. 

- Sim, mas a esta hora a garrafa de vinho já deverá estar aberta.

- E a meio…

Os fins de semana de inverno, por Troia, eram geralmente vivos, preenchidos com longas conversas, bem “regados” e gastronomicamente comprometedores. Também, com momentos um pouco mais isolados em que o grupo de separava e enquanto uns ficavam a ler no grande salão, outros optavam por dar uma caminhada e ver o mar.

Ana pareceu ter conseguido apaziguar os ânimos ainda antes da hora do almoço e as três já riam à lareira de copo de vinho na mão. Jorge trocava ideias com Pedro sobre o sexo dos anjos, tendo Sérgio e Nuno sido relegados para a cozinha.

Estes últimos, não demoraram muito a estarem acompanhados pelas mulheres que mais não foram do que assegurar-se do cumprimento da ordem de trabalhos e atazanar o juízo aos cozinheiros.

- Sérgio, acabou-se o sossego.

- Dá-lhes mais uma garrafa de vinho, Nuno e elas desaparecem.

- Estás-me a chamar interesseira? És tão sexy quando te colocas com provocações infantis.

- “Em terceira?”, não, não, vocês são mesmo em primeira… vá, princesa, leva lá esta tábua de queijos.

- És um fofo, amor.

Momento em que Sílvia, Nuno e Ana cruzaram o olhar, com sorrisos de cumplicidade e sem saberem muito bem o que estava ali a acontecer.

Rita, percebe, mas ignora o lapso, agarra na tábua de queijos, faz uma pose e um olhar de provocação e diz para as outras – Meninas, já temos o que queríamos. A que horas é que é mesmo o almoço?

- Fora da cozinha, já – Nuno parece desmanchar-se a rir e elas seguem o seu caminho de regresso à lareira.

Já passava das três da tarde, Sílvia e Jorge, de serviço aos cafés, foram trocando alguns encostos amigáveis, uns sorrisos e olhares discretos, mas que encantaram os amigos.

- Acho que a Rita e o Sérgio estão a acertar ponteiros.

- Não quero sequer saber o que o teu irmão aponta à minha… Não te via como cusca… estou chocado.

- Só quando são temas que me deixam feliz. E, tu, meu querido amigo, como é que estás?

- Estou a caminhar, obrigado. – Responde com um uma expressão pensativa e tranquila - Amigo?

- Amigo ou “amigo”? – Ela sorri em desafio, morde o lábio e vira-lhe as costas com um encolher de ombros.

No amanhecer seguinte, Rita e Sílvia cruzam-se à saída de quartos que não os que lhes foram destinados.

- Rita, Walk of shame?

- Cala-te…

Trocam risinhos e seguem para os respetivos quartos.

Ao pequeno almoço, as suspeitas, os olhares cruzados e os sussurros paralelos pareceram ir aumentando à medida que os amigos captavam a animação e cumplicidade entre Rita e Sílvia, a tranquilidade de Jorge ou o brilho no olhar de Sérgio.

Sem que nada tenha sido partilhado por palavras, o quadro pintado naquele momento dizia muito. As despedidas aconteceram, Pedro, voltou para a sua casa em Lisboa. Sílvia e Rita, regressaram com Sérgio, Nuno e Ana, acabaram por ser os primeiros a sair e no momento da despedida, Sílvia, com um beijo na face de Jorge, deixa um último sussurro.

- Até logo “Amigo”, espero-te na minha casa...

E uma última SMS é trocada, com o Sérgio a receber um “Vamos deixar primeiro a Sílvia em casa…”

A porta do veículo é fechada, o carro avança e a vida continua, com os seus pequenos retalhos preenchidos de grandes momentos.

sexta-feira, 19 de março de 2021

Vidas em Retalhos - XI - "Fim de semana em Troia - Parte II"

Jorge acorda pouco antes das seis da manhã, de uma noite mal dormida, mais uma, ataca um pacote de bolachas que encontra na cozinha, equipa-se e vai correr.

Lá fora, o dia mal começou a romper, o céu encontra-se encoberto e sente a força de um vento norte glaciar.

O seu cérebro pede-lhe uns minutos de descanso e algum esforço físico que o solte e que lhe ofereça uma hora de paz que seja. Apenas alguns minutos para afastar fantasmas e maus pensamentos. A vida parece não ter qualquer sentido e todos os sinais de alerta têm estado presentes. Sente-se sufocado por um sentimento de solidão, esmagado pelas imagens que já não consegue retirar da mente.

E, tudo recomeçara umas semanas antes, no seu regresso a casa, após a saída do barco no Seixal, com um pequeno toque entre carros, à saída do estacionamento. Não estando ele sequer relacionado com aquele acidente, a verdade é que o inferno se apoderara novamente da sua mente e as imagens do acidente de Sandra passaram a ser revividas 24 horas sobre 24. Ainda hoje, ele consegue ouvir a sua voz, as suas últimas palavras e o violento embate entre as viaturas, o momento que colocou fim ao sonho.

As pernas tremem-lhe e sente-se tonto, o coração bate mais forte e sente-se a perder os sentidos. “É apenas um ataque de pânico, apenas mais um”, tenta tranquilizar-se.

As lágrimas correm e involuntariamente começa a soluçar, perdido, sem rumo ou norte.

Retira o telemóvel do suporte que tinha no braço e envia uma mensagem a Nuno, dando a localização e pedindo discrição.

Não foi necessário esperar muito. Nuno acordara pouco tempo depois e ao dar conta da nota que Jorge deixara na cozinha “fui correr, percurso habitual a acabar na praia. #donotstress”, rapidamente se colocara no seu encalço. Não por qualquer preocupação em especial, não por qualquer sentido de urgência, mas porque o seu instinto lhe dizia para o fazer.

- Sétimo sentido? Deus meu, sempre é verdade, os casais que ficam muito tempo juntos ganham características comuns.

Tenta sorrir sem grande sucesso, agradece e diz-lhe que vai pedir ajuda.

- É uma resposta feita, mas ela não teria escolhido este destino para ti e iria querer ver-te avançar. Talvez não com uma modelo, sabes como é que são as mulheres… há uma competitividade difícil de entender…

Jorge consegue esforçar um sorriso e Nuno conclui com, “mas, feio como és, podemos excluir essa possibilidade.”

- Tu não vieste atrás de mim por achar que…

- Não, claro que não… Mas, não vou mentir, ficarei mais descansado se estiveres acompanhado por quem conseguir fazer a diferença. Consegues andar?

- Sim, consigo.

- Vamos procurar algum sítio aberto que venda pão e começar a preparar os pequenos almoços.

sábado, 13 de março de 2021

Vidas em Retalhos - X - "Fim de semana em Troia" - parte I

 - Pedro, a casa ficou fantástica. Somos só nós?

- O Jorge deverá chegar depois do jantar, a Rita e a Sílvia hão de vir com o Sérgio amanhã. Só não convidei a Cristina, não consigo criar uma afinidade com ela e muito honestamente, depois de uma semana de trabalho não aguento estar a ouvir alguém regurgitar tanto preconceito em tão poucas palavras.

Ana limita-se a sorrir, pensa em Sérgio, Rita e Sílvia, todos juntos no mesmo carro, questiona-se do que é que poderá correr mal e pergunta se é necessário ajudar com a confeção do jantar.

- Como sabia que vocês chegavam cedo, reservei-nos para o Museu do Arroz. E, entretanto, Jorme mandou-me uma SMS, parece que consegue chegar mais cedo e à partida ainda se junta para jantar. Malta, vamos no meu carro ou no vosso?

A viagem até ao conhecido restaurante Museu do arroz, foi relativamente tranquila. À saída da viatura, Pedro questionou-os sobre Jorge, se este estava a ser acompanhado por algum especialista. Teceu comentários acerca do estado de tristeza permanente, apesar de Jorge tentar simular o contrário.

 - Ele acaba por refugiar-se no trabalho e que diz não se sentir preparado para falar do que aconteceu, mesmo com um médico.

Pedro, olha para Ana, enquanto esta fala e leva a mão à testa em sinal de preocupação.

Nuno, por seu turno, acaba por contar que mesmo nos treinos, nos poucos em que vai, Jorge permanece calado, a grande maioria das vezes pelo menos, ou limita-se a sorrir apenas para acompanhar o grupo.

- Pedimos-te para convidar a Sílvia porque estamos com esperança que avancem para algo mais confortável e que o faça sentir-se menos só. Mas honestamente, não sabemos a posição dela sobre o assunto. Muito provavelmente, ela nem deverá estar ao corrente do nosso conhecimento sobre a situação, ou a não situação deles.

- Sim, não é um problema, gosto muito da irmã do Sérgio. Agora, vocês têm de ter presente uma coisa, a Sandra era a vida dele, estava grávida e ia a caminho para o ir buscar ao escritório num dia em que ficara retido com um cliente. Eles estavam a falar ao telemóvel, ele já estava na rua à espera e viu acontecer.

- E todos os dias tem de passar por aquele mesmo cruzamento na ida para o escritório.

-Sim...

Cerca de seis meses antes. numa fração de segundos, um acidente aparatoso e violento, causado por um condutor alcoolizado que não parou nos semáforos decide o fim de uma vida a dois e deixa um pai com um filho por conhecer.

- Não sei como é que ele se mantém sequer de pé, tanta revolta, tanta dor.

- E sentimento culpa – Completa Pedro – Preocupa-me o silêncio dele e aquele olhar, normalmente desligado. Repito, ele deveria estar a ser acompanhado e temos de encontrar um momento para o consciencializar. Tenho dois ou três nomes que lhe posso dar.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Vidas em Retalhos - IX - " Pedro Avelar"

- Este senhor convida-nos para jantar, mas são os outros que cozinham…

- Sérgio, cala-te e não deixes queimar a janta, isto não é a casa “dos Marques”, sempre com planos “B” e “C”.

- Vou escolher ignorar-te, Jorge.

- Digo-o com todo o carinho, Ana, tu não me ignores meu doce. – Sorri, olha com cumplicidade para Nuno e Pedro Avelar que, entretanto, acabara de chegar.

Ela sorri, escolhe ignorar e pergunta a Jorge se a Rita demora muito.

- Ela hoje não pode. 

- Não me digas que está chateada contido por andares a dormir com a Sílvia...

- Tu também já sabes? Mas, será que já não há homens à antiga?

- Tanto preconceito meu querido, podes provocá-los à vontade que eu fico sempre a saber tudo na mesma.

- Pedro, tu estás a ver onde é que eu estou metido?

- Amigo, a minha família não andou a fugir da Polónia para os Países Baixos e de lá para Portugal para eu estar agora no meio dos teus problemas sentimentais. Mas, posso adiantar que entendo a Rita. A Sílvia merece bem melhor. É que tu és mesmo muito feio amigo.

- “Até tu “Brutus””… Jorge, vira-se para Pedro Avelar, ri-se, encolhe os ombros e segue até à cozinha.

Pedro Avelar, amigo de infância de Nuno e médico de profissão, conseguia sempre encantar com as suas histórias de família. Era, ele, um judeu-sefardita oriundo do Alentejo e com a família a chegar às terras lusas, sem absolutamente nada.

- Pensava estar em minoria, mas a final não…

- Ana, tu sendo a experiente mulher que és, esperavas mais ou menos nível?

Ela dá uma gargalhada e sorri – Pedro, “experiência” não é sinónimo de idosa, certo? Esperava menos, muito menos e já agora, deixem o meu menino lindo em paz. Vocês não tocam nas minhas crias.

- Meu amor, deveríamos estar a receber um abono de família por cada um deles.

- Amor da minha vida, estamos sempre em plena sintonia.

- Já sabem, não podem entrar em casa depois das onze, nem trazer as amigas para dormir.

- Deves pensar… - Jorge regressa da cozinha com uma nova garrafa de vinho.

- Pessoal, próximo fim-de semana, afinal já não vou estar de banco. Pensei que seria uma boa ideia nos juntarmos em Troia. A casa foi renovada e aquela cozinha merece ser inaugurada. Pode ser que o Sérgio e o Nuno nos queiram presentear com uns petiscos – Interrompe Pedro Avelar, sem esconder algum entusiasmo.

- Daquele tipo de petiscos que tu não recomendas aos teus pacientes? – Questiona Nuno em tom de troça – Talvez se consiga arranjar umas saladinhas...

-  Pedro, como me conheces tão bem, eu aceito e lá estarei para abrir as garrafas de vinho e atirar o meu cara-metade para a cozinha. A minha sogra, aquela senhora santa, tinha mesmo carradas de razão.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Vidas em Retalhos - VIII - "Piores do que as mulheres"

- Sempre impedido.

Um desabafo que se repetia nos últimos dias.

- Estava a falar com o Sérgio, amor. – Esta situação com a Rita está a deixá-lo de rastos.

- A ele, a mim e a todos…

- És tonto e eu tenho trabalhos para corrigir.

- Ok. Desliga tu que eu estou a conduzir. Vou treinar com a malta e dar uma valente tareia ao Sérgio por estar sempre a ligar-te.

- Sim, faz isso.

O treino acontece, a leve brisa com um toque glaciar aumenta o desafio, mas nem isso os faz esmorecer.

- Jorge, estás particularmente feliz hoje… gosto de ver.

- Olha-me este, agora está a dizer que quer ver-me a chorar pelos cantos.

Nuno dá uma valente gargalhada.

– Nada disso, nada disso...

- O sexo faz sempre maravilhas… 

- Sérgio, cala-te.

- O que é que eu perdi e o que é que ele tem estado a ganhar?

- A Sílvia…

- A Sílvia, a tua irmã, Sílvia? A Sílvia?

- Sim, podes repetir as vezes que quiseres, mas sim, a minha querida mana e este macaco, andam a fazê-lo.

- Conseguem entender que eu estou aqui mesmo ao vosso lado? Passamos a ter conversas de gajas? Vocês são piores do que as mulheres.

Eles riem-se muito e soltam um “desde quando é que já fomos melhores?”

Nuno foi o primeiro a regressar a casa enquanto que Sérgio e Jorge permaneceram à conversa. Este último tinha optado por trazer carro e estava a fazer tempo de ver se o trânsito na ponte permitia um regresso mais tranquilo.

- Ontem estavas um pouco animado de mais com a Ana, não? Tu, vê lá onde é que te estás a meter.

- Estás parvo? O Nuno comentou alguma coisa contigo?

- O Nuno não é de comentários, mas houve alguns olhares de incómodo.

- Tu não me digas isso. É um não problema, em todo o caso. Agora, fala-me de ti e da minha irmã, o que é que se passa afinal?

- Não há nada para falar. Aconteceu e ainda não tivemos oportunidade de falar disso. E tu és uma língua de trapo.

- Sossega, foi com o Nuno, se estivesse a comentar com a Rita, aí sim, terias motivos para te preocupar.

- Estás a brincar? Já sabe e já ligou a cair-me em cima, o irmão és tu e estás aí no gozo, não sei qual é o problema dela.

- O gostar de ti… apenas isso. Eu estou feliz, penso que fez bem a ambos, seja o que for que acabe por sair daí. Não contava apanhar-vos em flagrante delito, mas não tinha ovos em casa. - Sérgio ri-se e depois coloca uma expressão mais séria. 

– Achas que este Ricardo veio para ficar?

- Pela conversa de ontem dir-te-ia que não, mas não te quero estar a dar falsas esperanças. Faz a tua vida e ignora o que quer que seja. Por vezes, o sentimento da eventual possibilidade de se perder alguém faz a diferença.

- Tem graça, foi exatamente isso que a Ana me disse ontem. Vocês, os idosos, sabem de facto muitas coisas…

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Vidas em Retalhos - VII - "O Jantar"

As refeições em casa “dos Marques” eram sempre animadas, pelos petiscos, pelas experiências culinárias que normalmente acabavam por funcionar, pela apresentação da mesa, lista de músicas a compor a banda sonora, pela sempre calorosa receção, considerando aquela frase batida de que os amigos, são a família que escolhemos ter.

Rita acabara de chegar com a sobremesa e uma tábua de queijos e fumados, por preparar. À disposição, já se encontra uma garrafa de Dão, escolha de Jorge. 

Rita apresenta Ricardo, o novo namorado enquanto se presta para ajudar Ana.

- Giro – Sussurra-lhe Ana ao ouvido enquanto abraça a amiga.

Jorge e Nuno trocam histórias ou comentários, Sérgio permanece em silêncio a simular que acompanha a conversa, agarrado a um copo de vinho, mas sem os ouvir, na realidade.

O jantar foi decorrendo com muitas conversas paralelas e sempre com Ana e Sérgio num animado diálogo, muitos sorrisos e até comportamentos relativamente pouco adequados apesar da intimidade. Nuno fez por ignorá-lo, Rita deitou um ou outro olhar de censura.

- O que é que se passa com a Ana?

- Minha querida irmãzinha, penso que está tudo bem com ela, parece animada.

- Demasiado animada, não? O Nuno está mesmo aqui ao lado, um pouco desapropriado, não?

- Está contente, está entre amigos, adora o Sérgio. O próprio Nuno adora o Sérgio, mais facilmente o adotariam como um filho.

- Parece-me mais incesto.

Jorge ri-se e muda o tema de conversa – Fala-me deste Ricardo… que tal?

- É um amante da Grécia antiga…

- Menos, muito menos. – Ele solta uma gargalhada.

Ela encolhe os ombros – Não sei, estamos a conhecer-nos.

- Denoto alguma falta de entusiasmo? Ou, toda esta festividade entre a Ana e o Sérgio te está a incomodar um bocadinho que seja.

Ela suspira - Sim, um pouco mais do que eu estaria à espera, pelo menos. Só me apetece chegar ao pé da Ana, alguém que eu absolutamente adoro e esganá-la com todas as minhas forças. Chamar-lhe todos os nomes feios que conheço e mais alguns que consiga inventar no calor do momento.

Nuno, ao ver que Ricardo tinha ficado um pouco desamparado, enquanto via Rita circular pelo grupo de amigos, trocava com este conversas triviais.

Ana e Sérgio, sempre muitos juntos e em sintonia, ela ri-se muito e ele também, tocando-lhe inúmeras vezes no ombro e sempre acompanhado de risinhos muito entusiásticos. Nuno parece mostrar algum desconforto, pelo menos aos olhos de Rita.

- Foi um jantar estranho amor. – Disse Nuno, assim que ficaram novamente sozinhos.

- A Rita avança e não parece ligar muito aos sentimentos dos outros. Penso que não seria muito diferente se fossemos nós no lugar deles e o grupo conseguisse resistir à separação e eu acabasse por entrar aqui nesta sala com o Manel.

- Ou com o Sérgio.

Ela sorri.

- Estás a arranjar-me um novo marido?

Ele sorri.

- Os dados estão lançados, meu amor.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Vidas em Retalhos - VI - "Momentos"

- Vá gajo, desbronca-te. Que tal o jantar ontem?

- Tu baldas-te aos treinos e depois queres conversa, daqui a pouco estás a pedir para reduzir o ritmo. – Mete-se Sérgio

- Puto, eu já corria ainda tu andavas a brincar com carrinhos… As pausas que faço é apenas para permitir que consigas acompanhar-me. – Responde Jorge com uma gargalhada

– O Nuno é o maior a organizar jantares a dois. Pudera, teve muita prática antes de assentar com a Ana.

- Contigo é uma no cravo, outra na ferradura. Sérgio, ainda tu andavas de calções e já ele era o maior da rua dele. Não fiques complexado, era num beco sem saída e sem vizinhos nas imediações.

Riram-me, o ritmo de treino permaneceu inalterado, mas o silêncio acabou por imperar.

A noite estava um pouco mais fria do que tinham previsto e quando terminaram, cada um seguiu para as respetivas casas.

Nuno liga a ignição e segue, Ana já tinha jantado e encontrava-se a ver uma das séries dela na Netflix. Sentia-se mais descontraído, apesar das semanas continuarem difíceis e dos dias de trabalho parecerem acompanhar também as noites.

Ainda antes do treino, Ana tinha-lhe novamente referido entusiasmada uma piada qualquer contada pelo seu muito amigo, Manel, um homem bastante mais novo, basicamente uma criança de vinte sete anos e a Nuno, começava a ser-lhe difícil disfarçar o desconforto.

Sérgio acabou por ser o primeiro a chegar a casa, vê uma casa vazia e sente-se a esmorecer. Acabou por perder a noção do tempo que permaneceu no duche e ao secar-se agarra no telemóvel e pensa ligar a Rita. Hesita e acaba por não o fazer. Mete o telemóvel à carga, não sem antes se certificar que o relógio tinha passado o treino para a aplicação no telemóvel.

Pela primeira vez, em muito tempo, não fez jantar, limitando-se a comer fruta e senta-se ao computador. “Quem é que necessita de mulher quando tem o novo simulador de voo?” Consegue sorrir e troca mensagens com Jorge que, entretanto, já tinha chegado a casa.

Tentado a tomar um duche e afundar-se no sofá, Jorge escolhe resistir. Lembra-se das palavras de Sérgio, agarra no telemóvel, escolhe uma lista do Spotify e resolve cozinhar.

Sandra fora o amor e a companheira de uma vida e apenas seis meses passaram desde o fatídico dia em que um condutor alcoolizado lha roubara para todo o sempre. Havia momentos em que se perdia, baixava os braços e chorava, normalmente com o cair da noite e o adormecer só acontecia com o recurso a medicação.

Usava o trabalho como escudo e por necessitar de pagar contas, mas dias havia em que não se sentia com capacidade de trabalho e mesmo de compreensão para o que estava a ler ou para solucionar as questões que tinha pela frente.

Caminhava pela vida sozinho, com aquele sentimento de fim de linha, de que tudo terminara, sem esperança, sem sabor, sem nada que o consiga fazer sentir vivo.

Os amigos, ou a irmã, nunca o deixaram de acompanhar, mas nada disso parecia mudar o seu sentir. Não era com eles que aninhava ao deitar, não era com eles que partilhava diariamente as suas noites, não era por eles que respirava.

Vê-se confrontado com medos que já não o intimidam e pensa, “pobre daquele que já não teme a morte”, sem dar pela lágrima que lhe percorre involuntariamente o rosto.

- Até um destes dias, meu amor. Eu penso em ti, penso muito em ti.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Vidas em Retalhos - V - "Vinte Anos"

- Brindo a ti meu amor, a mais vinte…

- Já passaram vinte anos? – Ana desassossega-o com o olhar e com o tocar de perna – Estas mesas são tão pequenas.

- Agradavelmente pequenas… - ele sorri.

- Estás a tentar seduzir-me?

- Não me atreveria a tanto. Que não te iluda a luz ambiente, as velas ou as flores.

- São “Bleu Aimable” meu amor e têm sempre o seu encanto.

- Eu tenho contactos…

- Mas, diz-me uma coisa. Ainda se oferecem flores a uma mulher?

- Apenas àquelas que se quer levar para a cama…

- Parvo – Ela dá uma gargalhada, a gosto.

Nuno perde-se em pensamentos. Dera-se a algum trabalho para conseguir aquelas tulipas. Ana era uma apaixonada por hortências e orquídeas, as tulipas encantavam-na pela elegância acrescida, mas havia uma história por detrás.

Na verdade, eram ambos ainda estudantes universitários e estavam a passar um fim de semana em Londres. Enquanto deambulavam pela bela cidade, no exato momento da passagem pela montra de uma florista, onde estavam expostas este tipo de tulipas, os seus olhares se cruzaram e num momento apaixonado, vinte anos antes, disseram pela primeira vez “amo-te”.

Já o vinho escolhido, um Amarone Bicchiere, atira-lhes com memórias de Roma, na primeira viagem a dois, num jantar com vista para o Panteão.

Nuno sabe que ela preenche a sua existência, seja pela forma de estar e de ver o Mundo, seja pela mulher brilhante que é. Independente, sensível e humana e com um carisma muito especial, ao mesmo tempo que mantém uma postura segura e desafiante.

Ana apimentava sempre as situações ao negar-se a dar-lhe vitórias fáceis.

Disfrutam da refeição, tentam adivinhar os ingredientes utilizados na confeção dos pratos, sorriem quando acreditam ter acertado. 
Ana olha para o telemóvel, vê uma das mensagens e ri-se.

- É o Mário?

- É o Manel e não comeces, está a atravessar uma fase complicada.

Ela muda o assunto e pergunta-lhe pelo Jorge, enquanto pensa que desta vez, ao contrário de todas as outras, o comentário dele teria sido sentido.

As relações avançam daquele puro estado de paixão, para uma cumplicidade tranquila, pelo menos para aqueles que têm a sorte de uma longevidade feliz e por vezes, a insegurança nuns casos ou indiferença noutros, levanta questões, nem sempre fáceis de dar resposta.

Lembra-se da primeira vez que o vira entrar numa sala. Era o aniversário de Rita, ele o melhor amigo do irmão desta, colegas de faculdade e já parte da família.

- É o homem mais bonito que alguma vez vi na vida – lembra-se de sussurrar à amiga, corada e excitada como se estivesse perante uma estrela de cinema. Que tonta, pensa.

Lembra-se das palavras de Rita como se fora hoje.

- Nuno Marques, longe. Estás parva. Amo-o como um irmão, mas não há nada mais mulherengo ao de cima da terra. Vamos, quero apresentar-te à minha cunhada, é uma querida.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Vidas em Retalhos - IV - "Rita Campos"


Rita dá por terminado o treino de ioga, pergunta a Sílvia se encontrara todos os ingredientes e esta responde afirmativamente, acenando com a cabeça e articulando “o que é o jantar?”.

- Algo simples, “Mariazinha”. Mais uma das minhas experiências.

- Tu e o meu irmão bem que poderiam ser o casal perfeito e juntar-se nem que fosse para fazer refeições para a família e amigos.

- Sim, mais um casal frustrado e sem sexo. Please, deixa a Rita em paz, eu sei que ele é teu irmão, mas ela já está noutra. Go go girlfriend.

Sílvia ironiza a falta de naturalidade de Cristina para usar aquelas expressões com um “estás a usar isso pela primeira vez, certo? Não tens muito jeito “girl friend” 

– A Rita é uma mulher independente, ele é meu irmão, ela é minha amiga e é claro que quero o melhor para ela. Estava apenas a referir-me ao jeito que ambos têm para a cozinha.

- Calma minhas fofas. 

Rita ri-se na desportiva. 

– Em todo o caso, seja o que quer que tenha falhado, a culpa não terá sido muito certamente das noites, garanto, if you know what I mean – ri-se para Silvia que acalma e pisca o olho com ironia para Cristina. 

– Meninas, momento da foto, a ir diretamente para o insta, a miúda necessita de alunas e um par de sapatos novos.

Risada geral, Cristina que ainda não tinha efetuado o pagamento, agarra no telemóvel e diz que vai usar o MB Way.

Rita foi despachar-se para começar a fazer o jantar, deixando as outras duas à conversa até que acabam por se lhe juntar.

- Rita, ainda te dás com aquelas tuas amigas? Pergunta Cristina com um sorriso que não esconde uma ponta de malícia.

-Quais amigas?

- A team Barbie, a versão portuguesa do sexo e a cidade, sempre com muito sexo, certamente.

- Acalma lá isso – Rita faz por sorrir, mas lança um olhar a Sílvia, como que a pedir ajuda ou salvação 

- A outra é que escreveu o livro “Para cima de Puta”, mas não, nem por isso, aquele cujo nome não pode ser mencionado não gostava lá muito delas e, por outro lado, começas a entrar numa fase em que tens de crescer e ganhas consciência de que a tua realidade não é a delas.

- Não digas isso, és independente, determinada, o limite é o céu minha querida.

- Meninas vamos para a mesa, alguém já abriu a garrafa de vinho?

- Mudando de tema. Já pensaste abrir o teu próprio negócio? Um pequeno estúdio para aulas de ioga, com uma zona talvez para refeições, um lanche ligeiro após os treinos, que seja. Tens opções de aulas para empresas. Tens tanto jeito e a imagem vende.

- Já vendeu mais minha querida, já são 35 e não dá para dividir por cada perna, por mais que o povo o diga.

- Sim, é verdade, estás velha e estragada.

- Cala-te Cristina – Rita sorri e encolhe os ombros como se nada disso fosse importante, pronta para avançar. 

- Cresci habituada a ter tudo, mas hoje dependo de mim e “mim” não chega para tudo. Ganho o ordenado mínimo e estou oito horas de pé numa loja, a ajudar pessoas a entrar nas roupas. Vocês estavam a falar de viagens e eu nem as sonhar posso. Uma “gaja” até tem de chular as amigas, quando teria todo o gosto em vos oferecer o treino. Queridas, é muito triste.

- Falta aqui a Ana, para nos animar.

- A “mãezinha” não pode, está num dos 29 jantares de celebração que faz por mês com o marido.

- Cristina, tu estás de todo mulher.

- Just saying, my dear, estão juntos faz 20 anos, têm quarenta e poucos… onde está a novidade? O que é que eles já podem ter para falar? Há quanto tempo é que ela não vê o padeiro?

Sílvia e Rita cruzam olhares, trocam pensamentos e acabam por rir-se.

- Um homem, faz muita falta Cristina, just saying my dear, you should try it

- Tu primeiro Sílvia, tu primeiro…

- Eu bem queria, mas os melhores já estão casados.

- So what?

- Meninas, vocês hoje estão para disparatar.

- Meu Deus! – interrompe Sílvia - Já passa da meia noite, eu tenho mesmo de ir. Ficamos combinadas para o próximo sábado?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Vidas em Retalhos - III - “Sérgio Oliveira”

 - Não acredito que te vais baldar. Fazes-me ir treinar sozinho? Não sejas feio, vou ter contigo e faz-se o treino pelo Seixal.

- Hoje, não. Obrigado puto. Toda esta atenção significa mesmo muito para mim, mas estou bem, não te preocupes.

Em tom de desafio pueril, Sérgio lança um “Tu não mandas em mim”.

- És doido, com o trânsito que ias apanhar na ponte, não ias conseguir chegar antes das nove da noite.

- Levo roupa para trocar e fico por aí a dormir, não seria a primeira vez.

- Hoje, não. És mesmo chato, pareces a Rita.

- Tens falado com ela? Como é que ela está? Perguntou por mim?

- Vamos antes voltar a falar da minha existência miserável e sem nexo. Ela avançou e tu deverias fazer o mesmo. A Rita é um ser de luz que se aborrece à primeira sombra.

- Pelo menos pareces recuperar o sentido de humor, já não é mau.

Enquanto desliga, Sérgio perde-se em pensamentos, entre um Jorge a caminhar para uma perdição que parece certa e Rita, um amor já não correspondido, acompanhado de um sentimento de frustração e solidão, de mágoa e por vezes mesmo de algum ódio por ressentimento.

Muda para o fato de treino, calça os ténis e procura o gorro. Acaba por decidir encurtar o tempo de treino e decide correr mesmo por Campo de Ourique, não sem antes se assegurar que o relógio está pronto a registar o treino.

Trinta minutos depois, regressava, um pouco mais stressado do que tinha começado. Correr à noite pela zona, revelara-se uma má escolha, pela exigência de atenção redobrada, das reduções constantes de ritmo, ao andar por entre o trânsito provocado pelo regresso dos trabalhos.

Entra em casa e desloca-se diretamente à cozinha, coloca um peito de frango a descongelar no micro-ondas, enquanto vai para o duche.

Imagina o sorriso que Rita faria se ali estivesse, ela que muito se divertia, apelidando-o de petit chef. Ele e os seus pratos diários a tornar todas e cada uma das refeições em momentos de prazer.

Ainda hoje, mesmo sozinho, ele continua a manter as suas refeições, num momento até mais para o terapêutico. Já despachado, recorre ao iPad e no Spotify, escolhe os Pink Floyd e o já velhinho o The Wall, enquanto coloca mãos à obra.

A lua e o Sol, o mar e a terra, o azeite e a água e ele e a Rita… três anos de relação, três anos de paragens, avanços e recuos. Perdera a noção do número de vezes que já terminaram e reataram, dos inúmeros sorrisos e dos momentos de amor.

Tinham em comum, o sexo, a cola que os conseguiu manter enquanto durou. Ele, um eterno romântico que gosta de surpreender e de momentos a dois, ao mesmo tempo que consegue ser um geek do pior, apaixonado por tudo o que é tenológico. Ela, uma doce barbie Zen, a trabalhar numa loja de pronto a vestir e a realizar nos tempos livres, aulas de ioga com as amigas, por forma a manter um nível de vida que já não consegue ter.

Rita é uma daquelas jovens que chegou à idade adulta com o mesmo grupo de amigas. Juntas comportam-se como adolescentes, com as suas roupas de marca, partilhadas ou a devolver à loja, após o uso, as longas saídas à noite, com os inúmeros jantares e os fins de semana com amigos.  Ele, com apenas mais um ano, mas a gostar de usufruir da sua casa, a limitar-se a manter um pequeno grupo de amigos íntimos a quem já considera família.

Nunca esteve destinado.

Ela avançou e ele acabou por permanecer no exato local em que se encontrara. Ela mantém os amigos que lhes são comuns e ele, o adicional sofrimento de manter com ela uma amizade.

O coração procura sorrisos e o que não pode ter. A mente procura correspondência onde tal não existe. O corpo procura prazer e encontra solidão e ele, como um todo, quer a ela, nos seus defeitos e virtudes, a miúda pueril e inteligente, do sorriso que desarma e do corpo que faz enlouquecer.