quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Amigos do desassossego - Capílulo VII (FIM) Amigo, tinha um figo, quando te vi, comi

 - Mariana, entra, elas estão na cozinha, serve-te do café, a velha trouxe croissants.
- Olá meninas!
Mariana sorri, fala de trivialidades e serve-se do café, recusa delicadamente o croissant, desculpando-se, também ela, com a dieta.
Tocam à porta e é Mariana que se levanta para abrir.
- Fernando, meu amor, como é que estás?
Fernando, responde que está tudo bem, com um sorriso que expressa isso mesmo, enquanto despe e pendura o casaco para depois se sentar numa das cadeiras em redor da enorme mesa de madeira, encomendada diretamente da Finlândia, via internet, que parecia, agora, deixar o sol aconchegar-lhe as cores e fazer da cozinha, muito provavelmente, o local mais acolhedor da casa.
Mariana aproveita para levantar as chávenas para café e colocá-las diretamente na máquina.
- Fernando, podias fazer-nos o jantar hoje. Vou estar com uns amigos agora à tarde, mas pelas 20 horas já posso estar pela tua casa.
- Pode ser, Paulo, assim temos mais tempo juntos antes de vocês irem de férias.
Aceita Fernando com um sorriso.
- Surpreende-nos com algo vegetariano.
Continua Paulo, com ar de quem já estava de frente para uma mesa repleta de iguarias.
- E já que estamos a combinar coisas, Mariana, e que tal Domingo jantarmos lá pela tua casa? Levamos o vinho, mas só uma garrafa, andas a beber demais. Andamos constantemente a dizer-te isso. Para o teu bem, já sabes.
- Paulo, larga-me e vai mas é fazer as malas. Parece-me ótimo, fica então combinado, posso fazer um frango no forno, Fernando, fazes uma das tuas famosas saladas? Já agora, alguém sabe alguma coisa do Marco ou da Carla? Nunca mais vieram a Campo de Ourique, se estivessem por cá até os podia convidar.
Teresa adianta-se e responde.
- O Marco é um pobre coitado nas mãos daquela, não tem sorte nenhuma com namoradas. E depois, a princesa não gosta de nós, pessoalmente, faz-me um favor, acho-a tão vulgar. No outro dia, dissemos que íamos lá jantar, recebeu-nos com cara de enjoada e sempre a dizer que estava com sono. Comigo nunca mais. Gentinha das barracas. Perguntei-lhe se estava doente, achei-a com mau ar e até tive o cuidado de querer saber se estava bem.
Já de blusão na mão e pronto a sair, Paulo despede-se e acrescenta.
- Deixa, o Marco merece. Consegue ser tão irritante com as suas opiniões sobre o que quer que seja. Lembram-se da minha discussão com ele sobre o Dubai? Aquilo é um lugar horrível, artificial, estivemos lá dez horas numa escala e detestei, absolutamente detestei… Bem, vou ter de deixar-vos, tenho coisas combinadas com amigos, mas, encontramo-nos logo em casa do Fernando.
A título de nota: Com esta publicação, dou por concluído este grupo de textos.
Foi um exercício de escrita diferente e muito agradeço aos meus amigos de sempre, por serem quem são e por terem sempre estado presentes na minha vida sem juízos de valor.
Muito obrigado a quem me acompanhou em mais esta aventura. Muito agradeço pelos comentários e pela ajuda nesta caminhada, penso que aprendi bastante e vou começar a preparar com entusiasmo mais um exercício de escrita diferente, mais ligeiro e num outro registo.
Beijos e abraços,
 
Sam

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Amigos do desassossego – Capítulo VI - “Um desassossego de amigos”

Após uma semana de temperaturas um pouco mais baixas, parece ter chegado a vez da chuva, do tempo cinzento e escuro e das ruas molhadas. Maria Luísa, prepara-se para sair do a minha cozinha, onde tinha tomado café, abre o chapéu e dirige-se para a casa de Paulo e Teresa.
Atravessa o jardim da parada, até à 4 da Infantaria e o seu olhar acaba por se focar nas pessoas que por lá deambulavam, com os seus chapéus de chuva abertos, numa multiplicidade de cores e tamanhos, talvez com olhares um pouco mais desligados do que o habitual e sem grande vontade de desviarem-se umas das outras, mas na mesma azáfama do costume, até porque o tempo e o Mundo não estão para grandes paragens.
Toca à campainha e é Teresa que vem abrir a porta.
- Bonjour! Trouxe queijadas de laranja.
- Entra, estou de dieta, mas alguém as há de comer. O Paulo está na cozinha, a ler, é a semana de Fernando Pessoa no clube de leitura do Fernando e da Rita.
- Deixa-me adivinhar, escolheste Bernardo Soares?
- Sim, Livro do desassossego.
- “São as minhas confissões e, se nelas nada digo, é que nada tenho para dizer”. Sinto-me tanta vez assim, mon chére… Ainda não escolhi o meu, mas estou tentada a Álvaro de Campos. Teresa, minha querida, já sabes o que vais escolher?
 
- Já sabes que os livros para mim só servem para criar pó, se não estiver em filme, não contam comigo. A propósito de filme, tens alguma ideia do que se passa entre o Fernando e a Rita?
- Não sei, mas pergunto-lhe assim que estiver com ele. Já não era sem tempo… isso, ou sair do armário, qualquer coisa menos esta solidão e obsessão pela irmã e sobrinha, um horror. Da Mariana, sabes alguma coisa? Ainda não falei com ela esta semana.
- Vem cá ter, mas, anda tão estranha, sinto-a a afastar-se. Sempre que estamos todos juntos, está com cara de frete, sempre a falar da amiga e da filha, vive a vida delas com uma intensidade completamente absurda…
Adianta-se Paulo sem retirar os olhos da leitura.
- E aquela dependência do Irmão? Segue-o para todo o lado, é o irmão isto, os sobrinhos aquilo, sem vida própria digo-te, já não a consigo ouvir. Chego a dizer-lhe para mudar de conversa, mas a burra volta sempre ao mesmo.
Interrompe Teresa, enquanto decide se come ou não uma segunda queijada de laranja.
- Não termina nada do que começa… Não quero parecer má, mas porque é que se mete nas coisas? Depois, queres convidá-la para algo e ela nunca pode.
Acrescenta Maria Luíza, com ar sério.
- Estão a tocar, deve ser ela, não pode ser boa, fala-se no diabo…
Paulo ri-se e vai abrir a porta.

sábado, 11 de janeiro de 2020

Amigos do desassossego – capítulo V – Nunca é tarde.


- Fernando é a velha, logo vou com a Mariana à Maître Renard, vamos comprar uns queijos, queres trazer um vinho e vir ter à minha casa, lá pelas oito? O Paulo e a Teresa vão estar a jantar com amigos, é sábado e pensei que talvez nos queiras aturar.

- Parece-me bem, vou ver se consigo encontrar um bom vinho francês à altura do evento.

Mariana e Maria Luísa passaram parte da tarde a percorrer algumas das lojas locais, em modo desporto de inverno, acabando a série de exercícios na padaria da esquina.

- Para além do pão, levamos umas queijadas de laranja?

- Ma chérie, tábua de queijos, com um bom vinho tinto, só pode ter para sobremesa o melhor bolo de chocolate do mundo.

Ambas sorriram, atravessaram a rua para comprar o bolo e seguiram na direção do Maître Renard onde escolheram os queijos, tendo ficado a saber que Fernando já por lá passara para o vinho.

- Merci mon chére.
Despedem-se e seguem para casa.

Mariana deu um salto rápido a casa para levar a cadela à rua, enquanto Maria Luísa começou a fatiar o pão para depois preparar a tábua de queijos.

Não foi necessário esperar muito tempo para já estar acompanhada por Mariana e Fernando, tendo a primeira garrafa de vinho sido aberta para respirar.

- Deixa-o respirar Mariana.

- Estás a brincar? Este vou asfixiá-lo já.
Sorri e serve-se de um copo.

- A Teresa disse-me estar a pensar ir de férias sozinha… fiquei sem palavras.

- A mim também, qualquer coisa sobre a psicóloga, o Paulo estava ao lado e não pareceu incomodado. Se lhe faz bem…

- Fernando, não acho nada bem.

Insiste Maria Luísa, a denotar um certo desgaste na voz.

- Minha querida, por vezes é necessário abanar as estruturas, se isto lhe der a confiança que ela necessita… uma mulher tem de ser independente, algo a dois não pode anular a pessoa que somos. É verdade que ela se anulou por ela mesma, não por ele. Ela não faz esforços para andar de um lado para o outro e ele não fica em casa, não está parado um só segundo, sempre com algo para ver ou alguém para estar. Entendo ambos e quem sabe, se ela começar a fazer coisas sozinhas, também ele, toma consciência das suas proprias ausências.

- Je ne suis pas d’accord. Se cada um fizer a sua vida em separado, em breve nada haverá para salvar.

- Ou, quem sabe, ele desperta e acompanha-a mais. Também não tenho soluções mágicas, a vida é complicada. Todos os dias penso neles e todos os dias espero que algo mude.

O tema passou a ser Fernando, abriram a segunda garrafa, falaram dos pais, da irmã e da sobrinha deste, o divórcio da irmã, como é que esta estava a reagir, os temas normais e já falados anteriormente até ao desgaste final.

Maria Luísa criticou-lhe o cabelo e mandou-o cortar.

- E quero essa barba aparada por favor, está um horror.

Mariana fez das roupas o seu tiro ao alvo e insistiu para que fosse no dia seguinte com ela aos saldos.

Ambas, como que em uníssono, tiveram-no bem na mira, insistindo para que tenha mais atividades, que altere hábitos, mais espírito de iniciativa, que faça mais pela vida.

- E junta-te a mim nas minhas caminhadas, sabes bem que tenho sempre muito gosto nisso, podes trazer a tua irmã e sobrinha, são sempre bem-vindas.

Fernando deixou um sorriso envergonhado, acenou afirmativamente e deixou sair um sofrido “eu sei, vocês têm razão”, basicamente as mesmas palavras que dizia sempre quando passava a tema principal de conversa.

O Domingo foi passado às compras com Mariana, longo mas divertido, ela é uma força da natureza, sempre com um  grande sorriso e sempre disponível, tendo mesmo o obrigado a marcar o corte de cabelo para o dia seguinte.

À noite, já por casa, preparava-se para ligar a televisão, mas algo o fez parar. Agarrou no telemóvel e ligou à Rita, uma amiga de sempre, conversaram um pouco sobre tudo, contou-lhe que tinha decidido levar a biblioteca do jardim do bairro a um outro nível e criar um clube de leitura. Ela adorou a ideia e ficou de fazer a listagem dos livros existentes na cabine para tentarem criar semanas temáticas e desenhar flyers para divulgação pelos cafés e lojas locais. Nessa mesma noite, Fernando criou uma conta no Facebook para abrir o clube de leitura, com sessões semanais, aos sábados pela manhã a realizarem-se pelo jardim da Parada.


Nota final: Este texto tem no seu parágrafo final uma "porta de entrada" para uma parceria com o blogue "A Minha Página" da Marta Vinhais. Quem quiser, está convidado a acompanhar os nossos próximos textos e entender um pouco melhor (sorrisos).

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Amigos do Desassossego - Capítulo IV - “Um Amor, como outros”

- Boa tarde, meu querido! A velha vem com apetite para o jantar, venha de lá essa sopa. A Teresa?
- Está no sofá da sala, já a atacar as séries, está de dieta e por isso somos só nós. Entra.
- Olá, minha querida, como é que foi o teu dia?
- Uma canseira, sei lá, farta de aturar pessoas estupidas, a minha psicóloga diz-me para respirar, mas, se respirar mais do que isso vou parecer uma árvore.
- Que horror… Mulher, isso é a dieta a falar…
Diz Maria Luísa a sorrir.
- E tu e o Paulo, como é que estão?
- Estamos ótimos, não te preocupes. A minha psicóloga diz que devemos ser mais independentes. Ele já o é. A mim, ela aconselhou-me a escolher um destino e ir de férias sozinha e acho que é uma boa ideia, vai dar-me armas para ser mais confiante e não estar a depender dele para tudo. É sempre ele que organiza as férias, escolhe o percurso, os hotéis, os voos, está na altura de ser mais eu, como era antes de nos conhecermos.
 - Vocês deixam-me preocupada, são como filhos para mim. Achas isso mesmo uma boa ideia?
- Ele já não foi de férias sozinho com amigos?
- Verdade, mas tu já não tinhas mais férias e ele encontrava-se entre empregos. Não estou a justificar o que fez, isso é só vosso, minha querida.
- Ele não está constantemente a sair com amigos? Eu não o prendo, acho ótimo poder ficar nas minhas séries e filmes e não ter de lidar com gente desinteressante. Estamos bem, sossega essa cabeça cansada e vai jantar.
Maria Luísa desloca-se para a cozinha, Teresa continuava a engordar, nunca a tinha visto tão grande, uma moça jovem acabada de fazer 40, quando a sua estatura lhe teria permitido manter-se uma mulher interessante, de olho azul e coloração loura, a esconder de forma perfeita um castanho envergonhado, isto, após uma série de dietas interrompidas para comer como se o mundo fosse acabar naquele preciso segundo.
Comem a sopa, falam do trabalho dele, se já têm planos para o fim de semana, ele já tem saída à tarde com amigos no sábado e no domingo, ambos iam almoçar a casa de um casal amigo e jantar a casa de outro, com passagem por um centro de exposições em Lisboa.
Paulo é dois anos mais velho que Teresa e estão juntos desde os seus 25, alto, com postura de menino de bem apesar das suas origens humildes, não chegou a conhecer o pai e a mãe sempre foi descompensada. Apesar de tudo, acabara por conseguir tirar o seu curso e obter um lugar de destaque na empresa em que se encontra, o que não deixa de ser notável.
Num casamento que se mantém por amor, dizem, um amor já platónico e sem desejo, onde nem tão pouco existe carinho, de dois jovens que parecem resistir a acordar para a vida, pelo conforto do conhecer, pelo medo de não voltar a amar, pelo desconhecimento do que é estar-se só. Considerando-se ele, já feliz por Teresa ter deixado de gritar por tudo e por nada após as primeiras sessões de terapia.    
Maria Luísa não se consegue lembrar da última vez que os viu irem de férias sozinhos, ou vai ela, ou vai o grupo todo ou um casal amigo ou mesmo familiares. O próprio dia a dia é alimentado com poucos momentos a sós e mesmo desses, nenhum a dois.
Com a mudança de trabalho dele, surgiram muitas amizades que até aqui desconhecia e teme que este se apaixone, e ainda, vezes há em que pensa se tal não seria para melhor.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Amigos do desassossego - Capítulo III - “O Poder da Amizade e do Amor, na Infelicidade da Solidão”


Fernando não é o tipo de homem que faz as mulheres suspirar ou mirar discretamente pelo canto do olho. Não sendo feio, revela descuido com o corpo, acrescendo-lhe uma ausência de brio no que veste, ou até, na forma como se apresenta, com cabelos castanhos, muitos deles já brancos e despenteados, obrigando, a quem tenha interesse, a olhar com profundidade, sob pena de não parecer ter o potencial necessário para vir a ser marido de alguém.

Partindo de uma personalidade algo apagada e submissa, prefere, na grande maioria das vezes, escutar a emitir opiniões, porquanto é dotado de uma fala fluente e um raciocínio brilhante, conseguindo passar uma noite inteira com amigos, sem dele se ouvir o menor som.
As suas valências estão lá e bem presentes, visíveis na sua bondade, na constante disponibilidade para com os amigos e família e pelo facto de ter as qualidades aproximadas das estrelas, refiro-me às Michelin.
Filho de emigrantes portugueses, em França, foi enviado, em tenra idade, para casa de uns tios, para que tivesse a faculdade de estudar e crescer em Portugal. Acabou por nunca ser o filho que eles nunca tiveram, tendo sido, nesses longos anos, alvo de constantes maus tratos que moldaram a sua personalidade até aos dias de hoje. Distraído e desligado, abusa desta qualidade sempre que o assunto não o deixa confortável e o olhar mais atento, pode apreender uma tristeza abismal, um lugar negro, sem retorno onde muito provavelmente pouco ou nada existe.
O vasto património imobiliário dos pais, mantém as rendas a correr e isso sempre lhe proporcionou uma vida desafogada, apesar de não lhe poderem ser apontados excessos ou sinais exteriores de riqueza.
Até ao último ano, trabalhara numa multinacional, tendo dito aos amigos que se estava a desvincular para ajudar o pai no negócio de família, onde acaba por ocupar apenas algumas horas do seu mês, sem que o progenitor lhe deixe tomar conta seja do que for, quando, o que aconteceu na realidade foi um convite irrenunciável para a sua saída.
Naquela tarde de inverno solarengo, como em muitas outras, ao passar calmamente pela 4 da Infantaria, entrou no jardim da Parada e atravessou-o, aproximando-se da cabine telefónica, agora biblioteca para quem por lá se sirva, numa tentativa de fomentar a leitura independentemente de haver ou não capacidade financeira, onde deixa de oferta mais um dos seus livros.    
Olha para o relógio, dirige-se para a minha cozinha, um dos espaços que mais frequenta, pede um chá branco, juntando-se-lhe Mariana. A conversa foi agradável, falaram de família, da sobrinha e da irmã dele, do divórcio desta, dos pais, do momento do país, da tese de doutoramento dela, pai, irmã, do sobrinho desta que continua sem revelar interesse em namorar e também, do cheiro e sentir da terra lá na quinta.
Acompanha Mariana, deixa-a no ginásio e segue para ir buscar a sobrinha à escola.
O dia começa a escurecer, num inverno que se quer primavera, chega, espera junto dos portões e o seu sorriso ganha dimensão, o seu olhar brilha, os seus cabeços parecem acompanhar um outro Fernando que se agiganta ,cheio de cor, de saber e de valor quando a menina da sua vida se aproxima e o abraça.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Amigos do desassossego - Capítulo II – “Domingo de scones, ovos mexidos, sumo de laranja natural e muito mais”


Há pessoas para quem os dias começam sempre cedo e o domingo não lhes é exceção. Mariana faz parte desse grupo, acorda pelas seis da manhã, vai levar a cadela à rua, uma idosa labradora castanha de catorze anos, em passeios cada vez mais curtos, seguindo-se o primeiro café da manhã, acompanhado por um biscoito ou uma torrada. Normalmente ainda consegue manter a casa limpa antes da sua habitual caminhada pelo bairro.

Separada, no auge dos seus cinquenta e cinco anos, mantém uma figura formosa, perna alta, um cabelo castanho, solto, volumoso e sempre cuidado, que apanha quando vai para o ginásio e uns olhos de um azul-acinzentado que continuam a despertar paixões e o imaginário por entre os seus alunos.

Entra no ginásio pelas oito, prepara-se para a aula de pilates, cumprimenta as habituais, com as conversas triviais do momento, para cinquenta minutos depois estar a regressar ao balneário.

Banho tomado, dirige-se para a saída, onde já se encontra Maria Luísa à espera.

- Bon jour, querida! Estiveste a queimar calorias para agora gastares tudo no Brunch e pior, obrigas-me a fazer esta caminhada toda até lá.

- Cala-te, sinto-me lindamente e já sabes, quero sempre tudo a que tenho direito.

- Sabes que não consigo imaginar-te na horta do teu pai a correr atrás dos legumes.

- Passei a minha vida inteira a correr atrás de leitões e alguns porcos, os legumes, é fácil.

Riem-se, continuam, falam um pouco de tudo e ao chegarem à rua da Infantaria 16, dirigem-se para a minha cozinha, onde já eram esperadas pelos restantes membros do grupo.

Paulo e Teresa, já tinham cada um, à sua frente, um sumo de laranja natural, mas, enquanto ele se tinha servido de dois scones e de um iogurte natural, com compota, ela já tinha acrescentado umas mini-panquecas, dois pães com sementes e uns ovos mexidos. Fernando, por seu turno, mantinha-se por um chá branco a acompanhar os seus ovos mexidos, lançando um sorriso carinhoso, quando as avistou.

O ambiente simples, simpático e vintage, com a cozinha a fazer parte do balcão, acaba por agradar ao mesmo tempo que permite visualizar a confeção das refeições. Ao entrar, Mariana deixa-se levar pelo jazz suave, reproduzido pelas colunas, enquanto pensa terem chegado no momento certo, com pouco ruído ambiente, num espaço estranhamente vazio e fixa o olhar nuns pequenos quadros pendurados na parede, com frases positivas, como a que estava de frente para o Fernando, com um “Today will be a great day” que a leva a lamentar que o ótimo dia, não possa ser, antes, com um sol primaveril que lhes permitisse aproveitar o espaço exterior.

- Já viram as velhas? Uma acabou de vir do step e já deve ter corrido meia Lisboa e a outra, entra aqui qual estrela de cinema, mudo, talvez.

- Pilates…

Paulo mantinha a sua piada da ordem, não a deixa continuar e virando-se, agora, para Teresa, continua.

- Vieste até aqui com esses saltos?

- Larga-me. Estou aqui para as curvas, a velha está no ponto e nunca o faço por menos, mon chère. Agora vou servir-me, este local tem os cheiros da cozinha da minha avó.

Maria Luísa, mantém a postura cuidada de uma modelo francesa, sem grande esforço, talvez pelo facto de nunca ter sido grande cozinheira. Viúva de longa data, vive sozinha, pelo menos, sempre que a filha mais nova consegue manter o pagamento da renda, e quando esta regressa a casa, são meses de uma relação de asfixia, pelas chegadas tardias e em avançado estado de ebriedade, passando a desesperada solidão, quando esta volta a ter emprego e a conseguir sair lá de casa.

- Vou perder a cabeça e vou começar já a atacar o cheesecake.

sábado, 4 de janeiro de 2020

Amigos do desassossego - Capítulo I – “Encantadores”


O traçado retilíneo de Campo de Ourique liberta luzes e sombras matinais de um Inverno ainda jovem, com as folhas caídas a decorar os passeios da Ferreira Borges, ainda com alguma cor outonal.

Maria Luísa percorre suavemente os passeios cobertos pela humidade da madrugada, ajeita o cabelo grisalho, pensa que o tempo está a começar a ficar fresco e vira à direita, pela Coelho da Rocha. Caminha um pouco mais, entra no moço dos croissants, faz o pedido, paga e regressa pelo mesmo caminho em direção à Casa de Fernando Pessoa.

Uma reforma decente e uns sessenta anos ágeis, deveriam ter a obrigação de dar-lhe uma outra alma, um outro ânimo. Pensava nas filhas. Da mais nova, ainda conseguia extrair sorrisos e um ou outro abraço, pelo menos, sempre que a sua carteira ficava, por ela, um pouco mais ligeira em valor. Já a filha mais velha, esta, acabava por ter uma maneira de ser muito lá dela, casada e com uma linda menina de dois anos, que nunca lhe era permitido ver, tirando naqueles curtos hiatos de tempo em que a filha lhe proporcionava momentos de qualidade com a neta, sempre que tinha planos para algo, que excusado será dizer, nunca a incluíam.

Chegada a um dos prédios em frente à Casa de Fernando Pessoa, toca a uma campainha, respira profundamente e força o sorriso quando lhe abrem a porta.  
    
- Paulo, meu querido, estava por perto e tenho croissants.

- Entra, serve-te de um café, se quiseres chá, sabes que também há, a Teresa está a acabar de arrumar a cozinha. Acreditas que a incompetente da senhora da limpeza nem a loiça da máquina tirou? É cada vez mais difícil contratar pessoal de qualidade.

- E pagamos-lhes nós horrores, um escândalo. A minha, faz quatro horas semanais e queria ter subsídio de férias e de natal… um horror. Teresa, ma chérie, que bom ver-te.

Senta-se em redor da mesa da cozinha e agradece pelo café.

- A Mariana deve estar a chegar, mandou-me uma SMS agora mesmo. De que serve ter um grupo WhatsApp se as velhas nunca veem as mensagens?

Diz Paulo com um sorriso e em tom brincalhão, servindo-se de um dos croissants.

- São tão bons, obrigado pelo mimo. O Fernando, também deve estar a chegar, vamos até ao ginásio…

- A tua filha disse-te mais alguma coisa? Interrompe Teresa, com a sua voz aguda e ar de gravidade.

- Não, mandei sms ao meu genro e… a campainha está a tocar… não quero falar disto ao pé da Mariana, já sabes como ela é. Deixa estar, Paulo, a velha ainda pode abrir a porta.

Sorri, levanta-se e dirige-se até à entrada.

Mariana entra com o seu grande sorriso, dá-lhe um beijo na face e abraça-a, pergunta se está tudo bem, recebe um aceno afirmativo e a retribuição do sorriso.

- Trouxe umas pequenas coisas lá da terrinha, sempre podem fazer uma sopa. Marie Louise, minha querida, tenho lá em casa um saquinho para ti, não sabia que ias cá estar.

Cumprimenta Paulo e Teresa com um beijo a cada, entrega ao primeiro o saco com legumes frescos e senta-se à mesa da cozinha, num dos lugares ao sol, servindo-se de um croissant.

- Este sol, vale ouro.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Planeta Azul (Parte III): Mudar o Mundo não custa, leva é tempo


Pedro entra no carro, Jaime diz qualquer coisa como “já não era sem tempo” e perante a ausência de expressões de Pedro, pede desculpa e diz estar a brincar.
- Qual é o problema? Fala comigo, por favor. Isto é maior do que nós, não pedimos isto, é verdade, mas, finalmente, algo está a ser feito.
- Esse é o problema, Jaime – Responde Pedro sem emoção – Nada está a ser feito. Lutamos por palavras e destas aos atos… vejo pouco. Sou insultado, sou assediado, sou agredido numa base diária e em várias línguas, há momentos em que quero acreditar e há momentos em que não sei se tenho forças para continuar neste circo e há outras, ainda, em que penso já não depender do meu próprio querer.
Joana entra no carro e este finalmente começa a avançar.
- O carro vai deixar-nos em Santo Amaro e de lá apanhamos o comboio até ao Cais do Sodré, para seguir até à Praça do Município e junto com o Presidente da Câmara ir a pé até Belém, pelo menos o dia está bonito.
- Foi decidido na reunião de segunda feira? – Indaga Jaime a Joana.
- Sim, é pelo gesto.
- E qual é a lógica, se temos de usar o carro até Oeiras, não nos vão acusar de hipocrisia? – Jaime, mantém o registo e insiste, fruto do cansaço, de dias demasiado longos na tentativa de poupar Pedro a parte das injurias e falsos testemunhos levantados.
- É apenas o Presidente da República… É apenas mais um momento de outros nesta tour infernal, Madrid para a semana, Paris, Londres e o que demais a agenda nos obrigar a ir. Ouve o que a Joana está a dizer, é um gesto, Jaime, um gesto que simboliza que temos de encontrar alternativas e que até lá, sempre que humanamente possível, devemos poupar e limitar o uso de recursos para chegar a níveis sustentáveis. Devemos, sim, despender as nossas energias na divulgação, na mobilização e continuar a manter a pressão naqueles que podem efetivamente mudar algo.
Faz uma pausa, respira e continua – Mesmo aqueles que fazem pouco, pelo menos fazem… e eu, quero acreditar que todo este penar, vai valer a pena para as gerações que se seguem, para os meus filhos, por exemplo. – Volta a respirar, faz uma pausa, parece voltar a si, sorri e acrescenta – Jaime, mudar o Mundo não custa, leva é tempo.
“Uma frase por um texto” desafio aceite pelo Rogério, do blogue Conversa Avinagrada a quem muito agradeço a frase e igualmente a presença neste meu regresso. Espero que gostem, sendo que este é o texto que encerra o conto maior que fui por cá escrevendo. Prometo não voltar a publicar textos tão longos, tornam-se complicados de seguir, mas senti necessidade de dar um fim a este.
O meu muito obrigado a todos e um Feliz Natal, com saúde e com tranquilidade. Um grande abraço natalício  

domingo, 22 de dezembro de 2019

Planeta Azul (Parte II) “A ausência de polícias a regular o trânsito, foi uma surpresa

- A mulher não foi criada para estar à espera do homem – Brinca Joana, com um tom que não esconde o nervosismo, enquanto aproveita para deixar a milésima instrução à ama das crianças.
Volta ao quarto e Pedro parece hipnotizado com os sapatos.

- Amor, essa gravata, não, vou escolher-te outra. – Entretanto, lembra-se de mais uma indicação para a ama, deixa a gravada ao lado dele, na cama e sai tão rápido quanto entrou.

Hoje, Pedro, tinha um discursos suportado por uma extensa equipa, entre comunicadores, especialistas e cientistas mas, as suas memórias fogem para aquele momento, parado no tempo, em que, com aquela mesma gravata, ele fez um discurso espontâneo, puro, bem articulado, fluente, abarcando temas como a diminuição da produção de resíduos, o impacto dos plásticos na biodiversidade, nos ecossistemas, pela pegada carbónica substancial que os plásticos descartáveis têm, em comparação com outros materiais. Falou de sustentabilidade, de alterações climáticas, da importância de dar ouvidos e voz aos cientistas. Reforçando que, o relógio, não para e alertando para o facto de ser tempo de agir.

A verdade é que Pedro estava no local certo, com pessoas dispostas a escutá-lo, com as vozes e os ouvidos do Mundo ao lado e num daqueles momentos de inspiração que produzem obras-primas.

O que se lhe seguiu foi algo que nenhum deles tinha antecipado. Como se Pedro tivesse descoberto a questão, foi, como que obrigado a desdobrar-se em entrevistas, em artigos para jornais, em passar a ser presença central em conferências e reuniões internacionais sem fim, com a adição de benfeitores a financiar toda uma equipa disposta a o munir de todos os argumentos possíveis para que a sua mensagem fosse suficientemente formada e poderosa para forçar os senhores do Mundo a agir, ao mesmo tempo que fosse capaz de motivar o comum dos mortais a, também ele, atuar.

O silêncio vindo do quarto, obriga-a a regressar, não fosse Pedro ainda estar a olhar para os sapatos.

- Estás lindo, és lindo e eu amo-te – Aproxima-se, dá-lhe um beijo na face e volta a ajeitar-lhe a gravata, apenas uma pequena fração de segundos após ele o ter feito e sorri – Agora sim, estás pronto. Vou dizer ao Jaime que vamos descer, ainda está mais nervoso do que tu, consegues imaginar? Estes homens dão-me conta do juízo. 

Dá um passo atrás, vira-se e tropeça no seu próprio salto, conseguindo não cair. Tal, fê-la projetar-se para a festa posterior à entrega do prémio Nobel da literatura, onde, já a preparar-se para sair, foi intersectada por um projeto de socialite, com o ego agigantado pelo facto de participar num dos programas televisivos matinais de uma estação nacional.

- Joana, muitos parabéns. O Pedro é o homem do momento.

- Obrigada – Diz com educação, sorri delicadamente e faz por avançar, sem sucesso.

- Foi um discurso bem instrumentado. Se posso perguntar, como é que Pedro se sente enquanto marioneta da esquerda ambientalista?

- Sabe? Eu podia até dizer que estou surpreendida e rebater ponto por ponto, se o senhor tivesse capacidade para absorver e entender as minhas explicações, mas, a verdade é que, a ausência de polícias a regular o trânsito, essa sim, foi uma surpresa.


“Uma frase por um texto” desafio aceite pelo Pedro Coimbra, do blogue Devaneios a Oriente a quem muito agradeço a frase. Espero que gostem, sendo que este é o segundo texto de uma série que pretende encerrar o conto maior que por cá fui escrevendo.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Planeta Azul (Parte (I): “Hoje, caminho para ver tudo de perto, desperto do sonho, como se tivesse os maiores olhos do mundo”

“Quando eu e a Joana pensámos em opções para salvar a editora, ela defendeu que necessitávamos de mudar o registo. Estava a faltar uma escrita capaz de cativar, de fazer sentir cada grito, suspiro ou gemido dos personagens, this is it my friend… Nunca vi a questão da amazónia ser retratada desta forma. Deste-lhe vida, coração e alma, a trama é um orgasmo múltiplo e cada palavra tem um sentir muito próprio. Podias ter-te limitado a criar uma lenda, mas não, Pedro, estás aqui para fazer história…”

Pedro acabara de recordar cada palavra por Jaime proferida três anos antes, aquando do lançamento do seu primeiro livro. Impossível de imaginar, três anos passados, estar ele, a poucas horas de reunir-se com o Presidente da República, num momento imediatamente anterior à sua condecoração.  

- Por favor, muda o registo, não aguento tanta infelicidade – o tom trocista de Joana desperta-o - És o homem do momento, a personalidade de que todos falam e o amor da minha existência…

- Joana, eu não quero, nem nunca quis nada disto. Só queria escrever… Não temos vida própria, quase não sei o que é tocar-te, nunca estou presente, não vejo os nossos filhos crescer.

- Eu sei… tal como tu sabes que o planeta agradece a tua voz, porque a dele já não era ouvida… Se, por cada apresentação, entrevista ou discurso teu, uma pessoa acreditar na salvação e começar a ter uma posição diferente perante a vida, já vale cada momento, e, a verdade é que, estás a mover milhões. O livro tocou e continuará a tocar, quer pela tua escrita, quer pela forma positiva e brilhante que deixaste as mensagens, os alertas e os esclarecimentos.

- Deviam estar a ouvir os cientistas, não a mim.

- Eles talvez não tenham o teu discurso, a tua capacidade de cativar e de te fazeres ouvir, ou muito simplesmente, não tiveram a oportunidade que te foi dada, a de ser ouvido, a de ter uma voz, e, tal como eu, acreditam em ti, para passar a sua mensagem.

Com a saída de Joana do quarto, ele começa a vestir-se, faz uma paragem para trocar a gravata, colocando uma outra em cima da cama e retorna novamente ao passado. 

Dois anos antes, escolhera aquela mesma gravata para o lançamento do seu terceiro livro, aquele que viria a catapulta-lo para o sucesso internacional, com o consequente relançar do primeiro livro publicado, num mediatismo assustador e descontrolado, pela dimensão adquirida, ao tornar-se, à escala global, no livro mais vendido de todos os tempos, consagrado, recentemente, em filme tido como favorito aos Óscares deste ano.

Começa a calçar os sapatos, Joana regressa e profere algo que ele nem sequer ouve. Ela volta a sair tão depressa quanto entrou e tudo o que ele se apercebe é que a gravata que deixara ao seu lado, não era aquela que ele tinha colocado em cima da cama, nem tão pouco aquela outra que ele tinha escolhido inicialmente.

Olha-se ao espelho, mas não se vê, ajeita a gravata, como que por instinto, sem dar sequer conta do que está a fazer e quando se apercebe já ter a gravata posta, lembra-se de a ter usado pela última vez, numa entrega de um prémio, Nobel de seu nome, esse sim, de uma vida, num discurso que deixara Jaime inicialmente em pânico, ao ver-se confrontado com  Pedro a largar o “guião” e improvisar, só voltando a conseguir respirar normalmente após se aperceber do impacto que o cunhado estava a ter e que terminou com uma ovação de pé, com as palavras que ainda hoje podem ser lidas em cada publicação a que a ele se refira - “Hoje, caminho para ver tudo de perto, desperto do sonho, como se tivesse os maiores olhos do mundo”.






“Uma frase por um texto” desafio aceite pela minha querida Noname, do blogue metamorphosis, a quem muito agradeço pela inspiração e pela extraordinária frase. Espero que gostem, este é o primeiro texto de uma série que pretende encerrar o conto maior que por cá fui escrevendo