quinta-feira, 2 de abril de 2020

Uma imagem por um texto: Liberté, égalité, fraternité (Parte II de II)




Chegado ao destino, acabo por apanhar o primeiro autocarro que vi disponível, da Air France e que deixou-me nos Champs-Élysées.

Ando um pouco, o frio cortante que se faz sentir, leva-me a apressar o passo em direção ao metro. Paro apenas alguns segundos, para contemplar o Arco do Triunfo e as perspetivas que, a partir deste, se nos é permitido ter, enquanto penso ser impossível não nos deixarmos apaixonar por esta cidade.

Confirmo estar a caminho, via WhatsApp, e escrevo a hora estimada de chegada àquela que será a minha casa para os próximos dois dias.

Durante o percurso, passei na Rue du faubourg, Saint-Honoré, diretamente à porta do teu visionário Pierre Cardin. 

Pergunto-me se devo telefonar-te ou muito simplesmente enviar uma SMS a dizer por onde ando.

A conversa com o casal anfitrião, para entrega das chaves, acabou por ser curta, mas muito agradável e numa Paris sem grandes segredos, mas plena de encanto, falei-lhes dos meus planos para o fim de semana e da razão que me fez escolher aquele apartamento, enquanto olho distraidamente para a janela.

Amanhã, sábado, será pelo Museu Rodin, antigo Hôtel Biron, edifício datado do século XVIII, em plena "época das Luzes”, onde anseio por voltar a admirar os belos jardins, com mais de duas mil roseiras, assim como as esculturas em mármore, bronze, gesso e terracota, pertença da obra pessoal do próprio, as obras de Camille Claudel, sua musa inspiradora,  pinturas de Van Gogh, Monet e de Renoir.

Há quem diga que não se deve regressar aos locais onde já fomos felizes. Pessoalmente entendo o conceito mas, pela primeira vez, vou estar a caminhar sozinho, num local onde já fui muito feliz, contigo. 

Sei que vou passear pelas roseiras e lembrar-me que são as “tuas” rosas, sei que vou passar pela estátua “o beijo” e sei que vou ter o conforto de aproveitar a plenitude de um momento de tranquilidade, num espaço que gosto, não deixando de sentir desejo em voltar a ver-te.

Referi-lhes querer um bom croissant, agradeci pelas sugestões. 

Independentemente de não haver diferença de idades, a verdade é que eu era um miúdo, ignorante, sem objetivos e a viver com o dinheiro dos pais, a disfrutar dos prazeres oferecidos, e, tu, mulher, já a lutar pelo que te era devido e a querer absorver todo o conhecimento do mundo.

Um demónio pleno de sensualidade, com uma opinião numa mão e outra pronta a atirar, não fosse o “Éden um lugar tão tedioso que, Eva obrigou Adão a comer a maçã. Sendo que, tal não foi um ato de sedução”, dizes com um sorriso e completas com um, “foi um ato de libertação”.

Sabes?

Antes de acabar a noite pelo Palais Garnier, Opéra National de Paris, a assistir às 7 Deaths of Maria Callas, vou querer champanhe, brindar a ti e à revolução que foste em mim.


E, lá estás tu, num misto doce e atrevido com um certo je ne sais quoi a dizer que “as aventuras amorosas começam com champanhe e terminam na camomila”, pessoalmente, então, podes imaginar-me a sorrir e a pensar o quanto teria gostado de ter chegado contigo à parte do chá.



Um exercício de escrita ao abrigo da rubrica “uma imagem por um texto”, desta feita, pelas imagens da Teresa do blogue ematejoca azul, a quem muito agradeço pela inspiração.
Mais do que as imagens, a inspiração acabou por partir das suas publicações e respostas a comentários, em tomadas de posições francamente bonitas. Para ti, Teresa, um beijo de agradecimento e brilhante como o sol, espero que gostes.





terça-feira, 31 de março de 2020

Uma imagem por um texto: Liberté, égalité, fraternité (Parte I de II)


Percorro o pequeno corredor em direção ao meu lugar e arrumo a bagagem de mão, sento-me junto à janela, aperto o cinto de segurança e coloco o telemóvel em modo de voo.

O dia apresenta-se particularmente ventoso, a carregar as nuvens pesadas de uma tempestade prestes a chegar. Uma hora no trânsito até à zona de garagens, a fim de deixar a viatura e ser transportado até ao aeroporto, o tempo de espera para entrar no avião, o suficiente para fazer os últimos telefonemas de trabalho, atualizar a agenda eletrónica e acabar de ler o jornal.

Afago a barba e ajeito o cabelo, numa tentativa infrutífera de controlar algum nervosismo, que inicialmente não compreendo, enquanto retribuo o sorriso às várias hospedeiras de bordo que por mim passam e que se preparam para proferir, para o geral, inúmeras indicações que sei não ir ouvir. 

- “Sou uma apaixonada pela vida”

Sou surpreendido com reminiscências de um passado pensado esquecido, pela voz cristalina, doce, atrevida, sedutora e segura de si, vinda do lugar imediatamente posterior ao meu. Faço por olhar discretamente e regresso à posição original com a desilusão espelhada de uma ilusão criada.

É claro que não poderia ser ela, penso. 

Sabes? Imaginar o “sou uma apaixonada pela vida” a ser proferido pelos teus lábios, transportou-me para ti, mantendo-me ofuscado pela ideia do teu olhar e continuo a ouvir-te, “a melhor maneira de manter no mundo o amor é continuar viva, amando sem dúvidas ou preconceitos”.

Volto a conectar-me momentaneamente com a realidade durante a descolagem, para de seguida, ouvir-te dizer, “não é na intensidade que se mede o amor, a qualidade deste, é que é valiosa”. 

O nosso amor foi intenso, ardente, apaixonado e apaixonante. “O verdadeiro amor é um rio correndo tranquilamente”, dizes tu, o nosso, penso eu, foi mais a água de uma cascata a correr tão enérgica e furiosamente quanto só o primeiro amor consegue ser.

Sou despertado por uma ligeira turbulência momentânea coincidindo com a chegada do carrinho de refeições. 

Aceito apenas o café e volto a ti.

“Paris não é somente a cidade do amor, é, também, a cidade do protesto, da revolução.” Dizes tu, naquele teu tom seguro, incisivo e revolucionário em que te agigantas, gesticulas e encantas, para depois continuares:

- Está expresso na pintura de Eugène Delacroix, “a Liberdade que dirige o Povo” e como tal, aqui estou eu a tomar uma posição:

Tu, muito simplesmente, levantas a blusa e foi assim que pela primeira vez vi os teus belos seios que os lisos cabelos pretos não chegaram a encobrir, no teu corpo magro, belo e firme de bailarina.

- “A verdade é que deveríamos ser todos mais tolerantes, em tudo, e não somos… Quer dizer, da boca para fora, sim, que não somos nada racistas, machistas, xenófobos, homofóbicos, etc. e tal e na prática? Humm… pois, tem dias”. 



Um exercício de escrita ao abrigo da rubrica “uma imagem por um texto”, desta feita, pela imagem da Teresa do blogue ematejoca azul, a quem muito agradeço pela inspiração.
Mais do que a imagem, a inspiração acabou por partir das suas publicações e respostas a comentários, em tomadas de posições francamente bonitas. Para ti, Teresa, um beijo de agradecimento e brilhante como o sol, espero que gostes.

terça-feira, 24 de março de 2020

Uma imagem por um texto – “Amor em tempo de guerra”



 


"Estou eu aqui incomodada e a pensar com os meus botões: o que fará ele com as cerejas e com a minha boca?”





Décimo dia de isolamento, um sol primaveril, uma brisa suave, poética e doce, a permitir o abrir da janela e a deixar entrar uma leve fragância à glicínia roxa do jardim.

Finalizo um e-mail, que envio e estou pronto a levantar-me da secretária, liberto-me de um telemóvel sem mensagens, e, da minha janela, olho distraidamente para a Serra da Arrábida, penso em ti, imagino-te a dormir, serena, de cabelos desgrenhados, a ocupar a enorme cama. Dou por mim a sorrir encantado com a tua beleza.

Desperto com o toque do telemóvel, com o desejo de saborear a tua voz. Vejo que é trabalho e esmoreço.

Um pouco mais tarde, lá estás tu, sinto um pulsar mais forte e sei que os meus olhos brilham, pergunto-te como estás.


Respiro fundo, consigo reconhecer a voz de Natasha St Pier do outro lado, o meu olhar é de desafio e troco provocações insinuadas, mas, sem nunca estar ao teu nível. 

Entre nós, sempre foi assim, eu à beira do precipício e tu a ensinares-me a voar. 

Mandas-me uma fotografia de uma taça com cerejas e dizes com um emoji a sorrir que não são para mim.


Suspiro quando desligas. 

 Imagino-te a arranjar as sobrancelhas e a limpar o rosto, sentada num banco, a olhar o rio pela janela, com vestes de seda a revelarem apenas o suficiente, e um raio de luz a beijar-te as costas.

Faço por regressar ao trabalho, mas no lugar de mapas, vejo-te e desejo-te. Desafias-me com o olhar, provocas-me com um galho de cerejas que não fazes tenções de morder, assim és tu. 

O dia decorre lentamente e anseio desesperadamente pelo momento de ver-te, à distância que seja. Fiquei de ligar-te, mas aguardo um pouco mais, por forma a compelir-te ao desejo, porquanto, sonho acordado com os teus lábios carnudos, assim sou eu.



Aguardo até ao segundo certo, o ponto imediatamente anterior ao partir da corda e lá estás tu, selvagem, doce e desafiante.

Acalmas-me a alma ao mesmo tempo que incendeias o corpo, sabendo que sou eu que estou à tua espera quando todo este pesadelo terminar para poder finalmente dizer,




O presente texto resultou da resposta da Céu, do blogue “ausente do céu”, ao meu desafio “uma imagem por um texto”. Agradeço-lhe a imagem enviada. Os links resultam de palavras da autoria da Céu e que podem aceder para ter acesso ao poema original, usadas por mim na criação deste texto de palavras paralelas. É um texto dedicado a todos os casais forçados a estarem separados e, são muitos no presente momento.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Uma imagem por um texto – “Reminiscências”


O amanhecer acabou por trazer um céu um pouco mais cinzento, ainda assim, iluminado por um sol que quer romper barreiras e brilhar. 

Da minha janela, vejo o gato da vizinha, uma vez mais à solta, a disfrutar da liberdade que já não me é permitida. Dá gosto vê-lo aos saltos, transbordando de contentamento, a brincar deliciado no meio das ervas e das flores. 

Alegro-me por a minha visão ainda me permitir ver as andorinhas e pelo privilégio que é, ainda, as poder admirar, um ano mais, um dia mais que seja.

Um pequeno pardal que surge a esvoaçar, uma abelha que dança por entre as flores da minha varanda e uma majestosa primavera que quer brotar antes de tempo, mais verdejante do que nunca, mais bela e mais colorida, como que a sentir que estou dela carente, como nunca estive.

Acabo por sorrir, ao pensar que, só pode ser mulher… Uma mulher entre homens, um verão engatatão, centrado em si e confiante, um inverno sério, por vezes sorumbático e pouco dado a grandes afetos, ou um outono inteligente, atraente, sorridente e de cores quentes. 

Para mim, ela é vida, água, brilho, cor, ela é criação, a mais bela das mulheres, o mais inteligente dos seres, muito mais humana do que nós mesmos, enclausurada, também ela, entre Estações egoístas quando, acredito que, não fosse a hiato temporal,  muito facilmente seria capaz de se apaixonar pelo encanto de um outono deslumbrante, um verdadeiro senhor entre seus pares.

E, sabes de uma coisa? Ela tem a tua cara, os teus cabelos, os teus olhos profundos, a tua personalidade e o teu sentir, e, por vezes, até o teu humor, naqueles dias… tu sabes... sendo que, para que não restem dúvidas, eu sou o teu outono…

Acabo novamente por sorrir, abano a cabeça, enquanto penso na minha própria insanidade.

Sim, sinto a falta de ir mais vezes à rua, das pernas permitirem outros voos, dos olhos verem um pouco mais além, do corpo voltar a suar, do prazer ir muito para lá dos pensamentos. 

Em todo o caso, a memória ainda me permite viajar e experienciar toda uma vida sentida sem arrependimentos.

Em jovem, somos invencíveis, em adultos somos nós, egoístas e senhores da verdade e a idade da experiencia traz a teimosia das limitações, a confrontação com a finitude, por vezes, o carinho dos netos e também, para quem pode, passeios e viagens mais tranquilas, onde cada local novo tem encanto, mas onde o verdadeiro conforto aguarda nos locais outrora já visitados e plenos de boas recordações, já sem a ansiedade de tudo ver, apenas e tão-só viver o momento, aquele.

Lembro-me das idas à praia, a minha praia, tornada nossa. Lembro-me do meu mar e do quanto o detestavas por não te permitir ir a banhos. Lembro-me de ti, meu amor, dos dias vividos, dos momentos de amor e do teu corpo… por ti, enlouqueci, sempre grato por todos os segundos a teu lado.

Olho novamente por entre os vidros e já não vejo o gato, no lugar deste, borboletas, pardais e dois pombos a esvoaçar.

Imagino-te, de cabelos soltos, caídos entre os ombros, lisos, brilhantes e da cor da noite, estás a ajeitá-los com os dedos, viras-te e envolves-me com aquele teu sorriso, apaixonado e desafiador, atrevido e carinhoso.

Por detrás de ti, o teu rio, estamos no pontão, preparados para embarcar, os outros passageiros continuam desligados nos seus pensamentos, macambúzios, cinzentos e sem vida, porquanto, lá estás tu, parada e deslumbrada com o teu rio, com o movimento das correntes, com o brilho de cada partícula, como se fosse a primeira vez que o estavas a ver, a sentir a leve brisa, a percecionar cada momento dessa tela, parecendo querer ignorar que no fim de mais um dia estarás de volta para o contemplar…

Tivemos de facto muitos bons momentos, bem vividos, eu e tu, tu e eu, sempre a dar cor aos sonhos, os teus, tornados meus…

Hoje sonhei com o voltar a ver-te, com o voltar a dar-te a mão e sentir o teu abraço. Sonhei com o teu beijo e lá tu estavas, deslumbrada com o teu rio.

Hoje, sonhei contigo, meu amor.





Uma fotografia enviada pela , a quem muito agradeço pela participação neste meu desafio de “uma imagem por um texto”. A já teve um blogue, pode ser que a consigam convencer a voltar… E, a fotografia utilizada é, portanto, de sua autoria.
O texto de hoje pode até ser um pouco mais sentimental, mas foi o que a inspiração ofereceu e quis, acima de tudo celebrar a vida, celebrar o amor e todas as pequenas coisas.

terça-feira, 17 de março de 2020

Uma Imagem por um texto: Vim espreitar (cuscar um bocadinho) POSSO? Ok!!! Confesso… que também vim saber de ti


Livre como o vento, indomável como o mar e feliz como uma borboleta…  Ela é mesmo assim, um pedaço de paraíso e um demónio de mulher.

De sorriso puro, de pensamentos carinhosos e palavras presentes, uma alegria que contagia num olhar que brilha com um fogo que quase não consegue conter. 

Escolho ignorar a atração que me domina, bem sabendo que perder-me-ia facilmente naqueles lábios carnudos de uma boca perfeita.


Acabado de regressar a casa de mais um dia como todos os outros, cansado e desinspirado, de uma rotina construída e desgastada e faço o que sempre faço, mudo de roupa e dou prioridade ao pequeno jardim, situado nas traseiras da minha pequena moradia, separado dos vizinhos por vedação alta em madeira, um pouco já queimada e seca pelo tempo, carenciada de tratamento e  esverdeada pela humidade de um inverno ainda em presença.

Concentro-me nas ervas a retirar, enquanto aguardo os seus poemas, pelo momento em que ela chega, em que espreita e lhe vejo o sorriso, enquanto que a imagino empoleirada numa das tábuas que reforça a alta vedação.


Acabo por regressar a casa a indagar-me pelo seu destino, com quem estará, o que andará a fazer... 


Regresso à porta da cozinha, olho pela janela num dia já sem luz e nada… enquanto penso, 


Imagino-a lá, limito-me a acenar, a sorrir, ligeiramente insano, eu sei. 


Sento-me no sofá, sem ligar a televisão e agarro num livro que não abro, fecho os olhos e imagino-a de voz suave e adocicada, novamente empoleirada na vedação, a recitar-me um dos seus poemas.


E com os últimos raios de luz, colho uma das mais belas rosas, dou-lhe, enquanto lhe seguro a mão. “Tive a certeza que poderia morrer naqueles olhos castanhos, onde vi o olhar mais bonito do mundo.
Enquanto a penso beijar, respondo-lhe.


Deixo-me adormecer.




Tentando contrariar a falta de inspiração, deixo um exercício de escrita no registo de “uma imagem por um texto, muito agradecendo à Noname, do blogue Metamorphosis pela imagem enviada, ao aceitar o meu desafio. Os links vão dar a publicações da autoria da Noname e que eu usei na construção deste meu texto de palavras paralelas.





sábado, 14 de março de 2020

#FiquemEmCasa


Já faz algum tempo desde a minha última publicação, algo que normalmente acaba por se “pagar” neste nosso mundo dos blogues, dizem… não considero importante… gosto que me acompanhem nesta aventura, por gostarem de me ler, tal como eu gosto de vos acompanhar, mas há coisas mais importantes nas nossas vidas, em especial nesta nova fase desconhecida que nos preparamos para começar a atravessar.

Espero, acima de tudo, encontrar-vos bem, com saúde, de preferência nas vossas casas, em modo de isolamento social e que as vossas entidades empregadoras estejam a ser razoáveis, o suficiente, para que quem tenha condições para o teletrabalho esteja efetivamente em casa.

Como em tudo na vida, não deixa de ser uma oportunidade de melhoria… nossa, enquanto sociedade, nossa, em termos familiares e pessoais. Um momento para colocar os valores nos pratos da balança da vida e tirar ilações e quem sabe, boas lições de vida.

Não querendo entrar num assunto que nos está a desgastar a todos, até porque o meu "negócio" é mais contar-vos histórias, a verdade é que, quanto mais rapidamente se combater este mal desconhecido, com isolamento social, por forma a quebrar esta corrente, mais rapidamente todos nós vamos conseguir voltar a prosseguir com as nossas vidas.

Dizendo isto, aproveito para desejar a todos um excelente fim de semana, boas leituras, bons cozinhados, boas séries, telefonem a quem vos apetecer…

Quanto a mim, tenho 4 imagens para transformar em textos e, em caso de não ter mais participações, penso, a seguir, voltar e escrever um pequeno conto. Muito agradeço a quem participou no meu desafio, deixo-vos com uma imagem da vista que tenho a partir do meu novo escritório para as próximas semanas, um beijo e um abraço de bom fim de semana.






sexta-feira, 6 de março de 2020

Regresso de "Uma imagem por um texto"



Volto a lançar, a título de desafio, aos amigos e a quem me visita, escolher participar nesta "Rubrica" e enviar-me uma imagem, fotografia ou pintura à escolha, estando o meu e-mail disponível no meu perfil, ou através do formulário de contacto, com a minha promessa, de posteriormente, a tentar usar como inspiração num pequeno conto.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Evolução - Capítulo I (Texto XI) – Eu e tu, tu e eu… Sabes bem que entre nós, nunca haverá um ponto final


- Nayara, espera.
Grito de plenos pulmões enquanto corro até à ponte de Santo Antão. Ela vira-se para trás, lança-me um olhar mais magoado do que frio.

De telemóvel na mão, tinha acabado de chamar um Uber. Penso o quão bela esta mulher é, nos seus quarenta anos, que a parecem tornar ainda mais desejável. Olho para trás e vejo os encontros e desencontros de uma vida passada, bem mais complicada, dos anos sem residência, sem vida própria e no limiar do precipício. Sei que a amo. 

É verdade que o meu corpo pode desejar saciar tamanha sede, mas, é a alma dela que me fascina, me eleva e me dá vontade de viver, de viver a seu lado. Tenho bem a noção que tal pensamento pode até soar a algo, um tanto ou quanto hipócrita, em particular quando se está perante alguém com a sua elegante silhueta, de medidas certas e perfeitas, aquele seu olhar ou os lábios carnudos. Mas, sim, esta mulher é um demónio vestido do que ela quiser…

Não consigo deixar de fazer um sorriso tonto ao pensar nisso.
Explico-lhe tudo, pelo menos tudo a que tinha tido acesso. Junto o acreditar que, se nos testaram, foi por algum motivo em particular. Ri-se quando sugeri que estava em aberto o lugar de direção para a Península. Manda embora o Uber, deita-me um olhar tão travesso quanto sedutor.

- E onde é que pensas pagar-me um copo?

- Não tens um avião para apanhar?
Respondo no mesmo tom.

- Cala-te. Plaza Nueva?

Atravessámos as antigas ruas do Casco Viejo, umas mais estreitas do que outras, em direção à Plaza Nueva, talvez o grande centro para quem quer descontrair entre um copo de vinho e um petisco. Cercada por edifícios e com uma zona coberta, a praça é acessível através de uma pequena escadaria, com uma zona coberta por arcos, fazendo lembrar uma mini Plaza Mayor de Madrid e toda ela preenchida por espaços destinados à venda de pinxos, com mesas, cadeiras e chapéus de sol, na zona central em torno dos arcos e a utilizar pelos visitantes.

- Mudava-me para cá, hoje mesmo.
Disse eu, enquanto encomendava um conjunto de pinxos por ela escolhidos e nos serviam dois copos de vinho tinto da região.

- Nem pensar, Bilbau dava-me conta da linha.
E, com isso, tive direito ao primeiro sorriso franco e deslumbrante da noite.

- Acreditas que esta praça foi construída em 1821?

- Adoro o estilo neoclássico. Silvestre Pérez Martínez foi um génio. Adoro Bilbau e, sim, via-me a viver por cá, com apartamento no centro e se não te tivesse como vizinho.

Finjo-me de ofendido e sem dar conta disso, lanço-lhe o meu melhor sorriso, os nossos olhos cruzam-se e senti um desejo enorme de a beijar, aquele era o momento e ela percebeu, desviando o olhar e optando por mudar o tema da conversa.

- Regressas a Roma?

- Sim, tenho voo cedo e tu?

- Já reservei para o primeiro voo da manhã.

- Um brinde aos nossos reencontros…

Ela volta a sorrir, recusa o brinde com um ar que me encanta e perturba os sentidos e diz que está na hora de ir, despede-se com um aceno e vejo-a afastar-se. Aceno de volta lançando um beijo. Sei, do mais profundo do meu ser, que entre nós, jamais haverá um ponto final.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Evolução - Capítulo I (Texto X) – Uma noite de verão (Parte II)


Nayara, volta-se, baixa-se com graciosidade e apanha o pequeno objeto, dá novamente uma volta à mesa para apanhar o segundo, regressa e enche de água, o copo que se encontra à sua frente, para nele colocar ambos os objetos que se desfazem no imediato segundo. Vira-se, agora, para o diretor do museu.

- Senhor, se os seus serviços de segurança são tão bons quanto eu os considero, e, respeitarem os procedimentos internos, deve estar a receber uma mensagem a reportar a falha das camaras de vídeo vigilância e a ausência de comunicações dentro do museu, em três, dois, um…

Momento em que entra na sala o responsável pela segurança, desculpando-se e pedindo um minuto em privado com o diretor, mas que este interrompe prontamente.

- Javier, está tudo bem com a segurança, sabemos das câmaras e da ausência de comunicações e está tudo resolvido, como pode comprovar no regresso.

Após a saída do responsável pela segurança, um pouco atrapalhado e confuso, a Ministra interrompe, ao mesmo tempo, faz um sinal para acalmar as vozes de surpresa e de alguma indignação de um público incrédulo, para em seguida completar.

- As pastas castanhas que vos foram distribuídas, contêm o relatório efetuado com base no teste aqui realizado, e que tem por princípio a simulação de um assalto, realizado com sucesso, grande sucesso se considerarmos que passadas duas semanas, ninguém deu ainda pelo sucedido… 

Já com a sala em silêncio e os olhares postos nela, continua.

- Tratou-se de uma operação simples, com apenas dois operacionais, num museu à pinha com seguranças, o que não deixa de ser preocupante. A tela “Uma noite de verão”, do conhecido pintor holandês Klaas-Jan Schuurs, foi previamente colocada no cofre do museu, onde ainda se encontra, e substituída por uma cópia adquirida a um pintor de rua, com muitas falhas e sem a técnica do original, para que durante o exercício não houvesse qualquer risco para a mesma. Dra. Muñoz, por favor, continue.

Nayara mantem a voz firme e a seriedade inicial.

- A presente simulação serve tão-só para demonstrar que se consegue entrar e sair. O que tememos verdadeiramente não é um assalto, mas sim, a destruição maciça. 

Vira-se para o ecrã, agradece quando a funcionária lhe entrega o comando e começa a passar uma sequência de imagens.

- A operação denominada “uma noite de verão” realizou-se em pleno dia. Pelas 12h30, bloqueámos todas as comunicações dentro e fora do museu, até um raio de cem metros. Interferimos igualmente com a vossa vigilância. Cegos, surdos e mudos. O intervalo de três horas em que os seguranças e os agentes chamados andaram à procura de sinais de alerta adormeceu as vossas interrogações, permitindo apenas pensar em problemas técnicos. A análise prévia ao vosso quadro de efetivos, permitiu-nos aceder a um dos vossos seguranças. Foi ele que nos informou, à entrada, do que se passava cá dentro, desde o aumento anormal do número de seguranças, até ao momento em que passou a ser considerado tão-só uma anomalia de cariz técnico  e foi também ele que, seguindo as nossas instruções, conseguiu o corte de energia e o bloqueio aos geradores de apoio. As provas da entrega e aceitação do envelope com o suborno, bem como das suas ações, foram por mim obtidas e já se encontram na posse do Senhor Presidente. O trabalhador em questão não será objeto de queixa crime por forma a não comprometer o nosso agente, mas será “convidado” a sair. 

Faz uma curta pausa, apenas o tempo suficiente para mudar de imagem.

- Pelas 15h29 a sala onde estava o quadro foi mandada fechar por questões de segurança, mal sabendo ter sido esse o momento exato, escolhido para trocar a tela. Mas, nem tudo são más notícias, em troca, como vão poder confirmar assim que analisarem a tela, os nossos agentes deixaram no seu lugar uma tela de qualidade superior, pintada pelo próprio autor, a quem muito agrademos a colaboração e a generosidade de a doar ao vosso museu.

- Ainda bem que estão do nosso lado…
Comenta a Ministra, com um sorriso.

Nayara, retribui o sorriso e avança.
- Certificámo-nos de não haver peças soltas e saímos dissolvendo as nossas defesas e a prova de qualquer anomalia de origem criminosa. Tendo o Senhor Presidente sido avisado da anomalia provocada ao sistema elétrico. 

Volta a sua atenção para o magnata, regressa a uma expressão um pouco mais séria e ao mesmo tempo que diz o nome deste, olha-o nos olhos, com a sua deslumbrante tonalidade verde-água, escolhendo ignorar o facto dele a estar a despir com os olhos.

- Senhor DeGraw, a sua exposição está em boas mãos. Entendemos as suas preocupações, mas não devemos ceder ao terrorismo. Hoje, mais do que nunca, devemos continuar a agir, a mostrar que não nos escondemos perante o medo. Durante dois meses, operacionais nossos vão aqui permanecer 24 sobre 24. 

Centra-se novamente na generalidade da plateia.

- Os nossos serviços estão à disposição para quaisquer esclarecimentos. Pessoalmente, agradeço a atenção dada, regressarei daqui a duas semanas para inspecionar as melhorias implementadas e dar formação ao vosso chefe de segurança.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Evolução - Capítulo I (Texto IX) – Uma noite de verão (Parte I)


Duas semanas mais tarde, a direção do Museu reúne-se a pedido do presidente da Fundação Solomon R. Guggenheim, responsável máximo pelos seus diversos museus, e, que se faz acompanhar de uma pequena comitiva, composta pela Ministra Espanhola da Cultura, pelo Senhor DeGraw e pelo comandante do corpo de polícia municipal da cidade de Bilbau.

A sala de reuniões da direção confronta o branco puro do piso e das paredes desnudas, com o teto abobadado em vidro, mantendo uma decoração simples, mas sofisticada, composta por uma mesa em forma de “U”, preta, com cadeiras da mesma tonalidade, colocadas apenas do lado exterior e com uma face interior a revelar a transparência do vidro, num design bem moderno, que nos transmite a ilusão de estar sentados no centro de um espaço celestial e infinito.

Após as devidas apresentações, o presidente, sem dar grande margem para conversas de circunstância, dá início à ordem de trabalhos. 

- Meus Caros, estamos aqui reunidos por forma a serem esclarecidos do que realmente se passou aqui, neste mesmo museu, faz hoje duas semanas. Senhora Ministra, por favor…

- Senhores, o Mundo, como nós o conhecemos, está a mudar. Há razões para acreditar que existem novas ameaças. As diversas frentes do terrorismo parecem estar, agora, centradas em aniquilar a nossa existência na sua essência e, como tal, tememos um ataque à cultura e às nossas raízes históricas… 

O magnata mantém um ar de incómodo e de preocupação e troca algumas palavras com o presidente da fundação. A Ministra, aproveita para abrir uma garrafa de água e encher o copo que tinha sido deixado previamente à sua frente para em seguida continuar.

- Senhores, está em causa tudo o que somos e tudo o que representamos. Vivemos tempos exigentes e por forma a estarmos preparados, a Comunidade Europeia acabou de criar, um novo departamento de combate ao terrorismo, centrado no património, com sede em Roma e com delegações nos diversos países.

Faz uma pequena pausa na voz, vira-se para a funcionária que se encontra à porta e pede para que mande entrar a Dra. Nayara Muñoz, a nova diretora do centro de operações para a Península Ibérica.

Entra de cabelo agarrado, vestido estilo executivo preto, a tapar os joelhos, mas a revelar toda uma elegância e com um salto que faz dela a mulher mais alta da sala, deslocando-se com a suavidade e a delicadeza de um felino, acompanhada por uma jovem morena, de cabelo aos caracóis, num estilo muito idêntico, mas de calças, ligeiramente um pouco mais largas em baixo.

- Buenos Dias!  
Agradece e cumprimenta os presentes, pede à assistente para distribuir as pastas, em formato A4, pretas, para a Ministra e para o Presidente da Fundação e castanhas para os demais participantes.

- A tecnologia atingiu níveis de desenvolvimento muito para lá da imaginação do comum dos mortais e detemos, hoje, meios de alerta e defesa eficazes. O grande desafio está em combater um adversário com meios em nada inferiores e sem regras a respeitar, pelo que, há o justo receio dos museus não estarem devidamente assegurados contra um tipo de ataque um pouco mais sofisticado. 

Virou-se para a porta, onde se encontra a funcionária do museu e faz um sinal para que acione o sistema de vídeo, iluminando-se, de imediato, a parede à sua direita, com a imagem do museu, do lado da entrada, junto ao Puppy, a gigante escultura de flores em forma de cachorro.

- Tendo por base as preocupações anteriormente referidas, os Estados Membros solicitaram uma prova da fragilidade dos nossos museus e o vosso foi um dos escolhidos, não por ter um mau sistema de segurança, mas, antes, para provar que até os museus melhor preparados estão em risco perante os recentes avanços tecnológicos. 

À sua frente, em cima da mesa, tem duas pastas, uma castanha e uma preta. Agarra na preta, circula pela sala e coloca um pequeno objeto, que mais se assemelha a uma pedra, no chão, junto à parede contrária ao local onde estava inicialmente, volta ao seu lugar e coloca outro, no solo, junto à parede mais próxima, volta-se para o ecrã gigante, aponta para um número e endereço de sítio internet, localizados no canto inferior direito e continua.

- Agora, por favor, tentem ligar para o número inscrito no ecrã e aceder ao link.

Enquanto os demais presentes articulam palavras soltas de espanto e algum receio, por não entenderem a razão do exercício, centrados nos seus telemóveis, sem acesso à rede móvel, a ministra e o presidente mantêm-se serenos, com a calma possível que um pouco mais de conhecimento parece dar.